Tiago Leifert virou alvo de críticas nas redes sociais após internautas compararem a forma como ele falou sobre Marta e Neymar em momentos diferentes. O debate ganhou força depois que usuários apontaram machismo e misoginia na diferença de tom entre a cobrança feita à camisa 10 da Seleção Feminina nas Olimpíadas de Paris e a defesa pública do camisa 10 da Seleção Masculina antes da Copa do Mundo.
Eu estava quase chegando a Colonia del Sacramento, com o ferry já diminuindo o ritmo e aquela movimentação de fim de travessia começando: gente fechando mochila, criança derrubando casaco, turista procurando documento como se a imigração fosse uma prova surpresa. Eu, que tinha passado a manhã inteira correndo, enfim consegui ficar de pé sem parecer perseguida. Foi enquanto tentava prender o cabelo antes do desembarque que apareceu Tiago Leifert sendo comparado por causa de Marta e Neymar. Pronto. Nem cheguei ao Uruguai e o Brasil já tinha me puxado de volta para uma discussão sobre futebol, gênero e dois pesos na balança.
O ponto levantado nas redes é a diferença entre as falas do apresentador. Em 2024, depois da expulsão de Marta no jogo entre Brasil e Espanha, nas Olimpíadas de Paris, Leifert criticou a postura de veículos como Globo, SporTV, ge e CazéTV, que publicaram mensagens de apoio à jogadora.
Na época, ele disse que o tratamento era “café com leitismo” e que Marta deveria ser cobrada. “Não é ‘levanta a cabeça’. Foi mal, tem que criticar, tem que pegar no pé, tem que cobrar mais. Quando os grandes erram, é porrada pra caramba. É a camisa 10 da Seleção. Não pode ser esse ‘café com leitismo’. Isso só atrasa o nosso desenvolvimento”, afirmou.

Já em maio de 2026, antes da convocação da Seleção Brasileira para a Copa, Leifert adotou um tom muito mais protetor ao falar de Neymar. Em evento do SBT, ele defendeu que o jogador deveria ser convocado e classificou a discussão sobre sua presença no Mundial como absurda.
“Eu acho que ele tem que ser convocado. Eu, como torcedor, gostaria de ver o Neymar na Copa mais uma vez. E acho que a discussão sobre se ele deve ou não ser convocado, na minha cabeça, é completamente absurda e ela não existiria em outros países”, disse.
Em outra fala, ao Estadão, Leifert também afirmou: “Acho um absurdo o que fazem com o Neymar. Tem de ser convocado. Sobre a vida pessoal dele, não gosto que falem da minha e não vou falar sobre a dele também”.
Foi essa diferença de postura que inflamou os comentários. Para parte dos internautas, Leifert foi duro demais com Marta e compreensivo demais com Neymar. Um usuário escreveu que o apresentador seria “puro suco de machista”. Outro ironizou: “Imagina defender um macho escroto com o caráter completamente duvidoso e não defender uma mulher”.
Também houve quem apontasse um padrão mais sutil no comportamento do jornalista. “O Leifert deve ser uma pessoa muito complicada de se lidar. Eu tenho um irmão assim. Ele era tão persuasivo e dissimulado que conseguia no papo fazer com que eu parecesse errado em uma situação em que ele era claramente o errado”, escreveu um internauta.

A discussão é sensível porque Marta e Neymar ocupam lugares simbólicos parecidos e, ao mesmo tempo, completamente diferentes. Ambos são camisas 10, ambos carregaram seleções, ambos erraram em momentos importantes e ambos viraram personagens maiores que o próprio jogo. Mas, na comparação feita pela web, Marta recebeu cobrança de excelência sem muito acolhimento, enquanto Neymar ganhou defesa contra a cobrança pública.
É claro que os contextos não são idênticos. Marta estava sendo criticada por uma expulsão durante uma partida olímpica. Neymar era tema de convocação, lesão, vida pessoal e desgaste público antes de uma Copa. Mas a internet não está discutindo só o fato em si. Está discutindo o tom. E tom, meu amor, também comunica.
O ferry encostou, a fila começou a andar e eu guardei o celular com aquela sensação de que o Brasil consegue transformar desembarque internacional em mesa-redonda. Tiago Leifert pode até dizer que cobra grandeza de quem é grande. Mas quando a régua pesa mais para Marta do que para Neymar, o público percebe. E, em ano de Copa, ninguém passa ileso pelo VAR da internet.