Jairinho vai pegar 43 anos de cadeia e Monique saiu de alvará na mão às 2h da manhã, enquanto o pai de Henry Borel, Leniel, dizia para as câmeras que mataram o filho pela terceira vez. Terceira. Eu estava jantando em San Telmo quando o celular começou a explodir, e posso garantir que o bife ficou frio na mesa porque não consegui largar a cobertura por um segundo sequer.
Quem acompanhou esse caso desde 2021 sabe que Henry morreu com quatro anos, espancado pelo padrasto dentro do próprio apartamento, enquanto a mãe estava na mesma casa. A primeira condenação moral veio com o indiciamento. A segunda morte, nas palavras do próprio Leniel, foi uma decisão anterior dessa mesma juíza. E a terceira foi essa aqui, madrugada adentro, com a magistrada Elizabeth Louro discursando sobre misoginia e mãe perfeita num julgamento de homicídio. Eu tenho respeito pelo debate de gênero, mas ele não cabe dentro de um laudo que descreve o que aquela criança sofreu.
O argumento da juíza foi que Monique já foi punida pelo linchamento público e pelo sofrimento de perder o filho. Leniel respondeu, na lata, que a misoginia matou Henry, porque quem tinha dever de protegê-lo era exatamente ela, a garantidora, que estava no apartamento. Nas redes, o X virou campo minado em segundos: de um lado, quem comemorou a decisão como vitória feminista; do outro, ativistas de proteção à infância chamando o precedente pelo nome certo, perigoso. O perfil do MJSP foi marcado mil vezes. Nenhum político de plantão quis chegar perto do assunto ainda.
Ainda do celular, com a mesa do bistrô já liberada e um Malbec na taça que não merecia essa notícia, vi que o assistente de acusação Cristiano Medina já anunciou recurso. O argumento é técnico e promissor: houve mudança irregular nos quesitos apresentados aos jurados na hora da votação, o que pode anular tudo que foi decidido em relação a Monique. Isso significa que essa história não acabou na madrugada de hoje.
A decisão vai virar tese em faculdade de direito, vai ser debatida em congresso e vai aparecer em pelo menos três temporadas de podcast true crime. Mas o que fica agora, antes de qualquer análise acadêmica, é a imagem de Leniel Borel na frente das câmeras, de madrugada, usando a palavra “terceira vez”. A juíza quis fazer história com um discurso feminista. Conseguiu, mas não do jeito que imaginou.