Eu estava em Palermo Soho, cercada de argentino bonito fingindo que não engorda com medialuna, quando o celular começou a apitar com a mesma notificação: “Você viu a Pequena Amanda?”. Abro o link e dou de cara com uma mulher de 37 anos, Amanda Maria Souza de Oliveira, presa em Joinville depois de passar 14 meses vendendo a personagem de adolescente autista de 12, acolhida como filha por um casal que acreditava estar salvando uma menina em situação de abuso. Eles pagaram comida, teto, festinha de aniversário e até tratamento com Mounjaro, remédio injetável caro que virou objeto de desejo em academia e alvo de operação policial por uso irregular.
A história começa como roteiro de dramalhão evangélico: Amanda se apresenta primeiro como jovem de 18 anos, procurando trabalho numa igreja do distrito de Pirabeiraba. Conforme ganha confiança, a idade começa a encolher, surgem relatos de violência na família, fuga do Pará, diagnóstico de autismo e toda uma novela de sofrimento montada para disparar o instinto de salvador de quem cruza o caminho. Segundo a polícia, não é estreia, é franquia: ela já repetiu o mesmo enredo em São Paulo, Minas, Rio, Goiás e Rio Grande do Sul, sempre como menor vulnerável, sempre capturando casas e corações alheios.
Nas redes, a coisa pegou fogo em tempo real: fotos da “filha” de 12 lado a lado com a ficha da presa de 37, vídeos de react, thread no X perguntando como alguém acredita que aquela cara é de pré-adolescente, meme com Mounjaro como se fosse publi improvisada. Página de fofoca transformou a mulher em personagem de humor, enquanto a defesa pedia exame de sanidade mental e a Justiça convertia a prisão em preventiva. Todo mundo se sentiu delegado retroativo, apontando inconsistência em foto e linha do tempo que ninguém quis enxergar antes da polícia bater na porta do casal.
De tarde, já na Recoleta, eu via brasileiro fazendo turismo em cemitério de rico e debatendo “Pequena Amanda” como se fosse final de BBB. De um lado, o povo debochando da ingenuidade do casal, quase culpando as vítimas por terem acreditado na história; do outro, uma galera puxando o freio lembrando que existe laudo psiquiátrico a ser feito e uma família real envergonhada escondida dentro de casa. A única coisa em que todo mundo concorda é que virou entretenimento nacional, mais um caso em que tragédia, fé e burrice emocional se misturam na timeline.
Meu veredito, direto da taça de malbec: Amanda domina a arte de sequestrar emocionalmente quem precisa se sentir herói, e isso é perigoso, mas a vaidade de salvar desconhecido sem pedir documento é o golpe perfeitinho que a gente insiste em oferecer de bandeja. Enquanto o exame de sanidade não sai, o que já está diagnosticado é o país: um lugar onde basta alguém aparecer com uma boa história de sofrimento para ganhar cama, remédio caro e um trending topic, e onde a única coisa mais inflada que o preço do Mounjaro é o ego de quem acha que jamais cairia igual.