Eu estava em São Paulo, entre um café nos Jardins e uma manicure que sabe mais da Globo do que muito executivo de aquário, quando esse babado caiu no meu colo. Pedro Bial resolveu abrir a gaveta da vergonha e contou que sua pior entrevista foi com Tom Jobim. Minha filha, quando um homem com décadas de televisão confessa trauma, eu paro até de escolher esmalte.
A história aconteceu em 1985, numa gravação para o Globo Repórter, no Catetinho, no Distrito Federal. Bial ficou nervoso diante de Tom Jobim e tentou puxar assunto com “Água de Beber”. Mandou um “E aí, Tom? Foi água de beber?”, e recebeu de volta um banho gelado de impaciência.

Tom, segundo Bial, já não aguentava mais falar da música e respondeu que estava de saco cheio do assunto. O apresentador admitiu que foi descuidado, desatento e mané, palavras dele, porque homem famoso quando se arrepende também sabe fazer inventário da própria bobagem. Eu gosto de confissão assim, com culpa, suor e um pouquinho de humilhação cultural.
O mais saboroso é que Bial disse se chicotear até hoje pela cena. Quarenta anos depois, a pergunta continua voltando como boleto emocional, dessas lembranças que entram sem bater e sentam no sofá da alma. E vamos combinar, diante de Tom Jobim, até jornalista experiente podia virar repórter de primeiro crachá segurando microfone com a mão gelada.

Agora, Bial está mergulhado na vida e na obra de Tom para uma série documental sobre o compositor. A vergonha virou pesquisa, a gafe virou redenção, e a entrevista ruim ganhou segunda vida na roda de fofoca fina. Aqui em São Paulo, eu fechei a bolsa e dei meu veredito: quem desafina diante de Tom Jobim pode até sofrer, mas se transformar vexame em documentário, pelo menos sai do tom com classe.