Acordei aqui em Petrópolis com aquele friozinho de serra que pede café reforçado, e foi no meio da segunda xícara que o telefone tocou com código dos Estados Unidos. Era a Marlene, minha amiga que mora em Orlando e não perde um debate da direita brasileira por nada nesse mundo. “Senta que tem desabafo quentinho saindo do forno, depois daquele vídeo enlouquecedor da Michelle”, ela avisou, e me mandou um áudio do Paulo Figueiredo metendo o verbo na Michelle Bolsonaro. Coloquei pra tocar e juro que esfriou o café de tanto que eu fiquei passada.
No vídeo, o comentarista até reconhece o tamanho da Michelle no jogo, ela é presidente do PL Mulher, pré-candidata ao Senado e dona de uma força e tanto entre as evangélicas e as mulheres do país. Só que, segundo ele, toda essa influência estaria sendo usada pra alimentar uma “picuinha pessoal” em vez de socorrer o enteado. O Paulo acusa a primeira-dama de virar as costas pra candidatura do Flávio Bolsonaro por causa de uma disputa de legenda lá no Ceará, e classifica esse silêncio como puro “pecado da omissão”.

E aí, meus amores, ele resolveu abrir a Bíblia ao vivo. Citou a parábola dos talentos, lembrou que quem se exalta será humilhado e cravou que omissão é falta mais grave do que a própria comissão. O petardo que vai rodar a semana inteira veio na sequência, quando disparou que a Michelle é “tigrona com o Flávio e tchutchuca com Alexandre de Moraes“, acusando-a de tratar o ministro do Supremo com beijinho e “irmão em Cristo” enquanto queima o enteado num vídeo em plena campanha. Cena de novela mexicana com terço na mão.
Agora deixa eu botar os pingos nos is, porque passar pano não é comigo. A Michelle pode não ser o meu xodó, a gente sabe que não somos exatamente chegadas, mas fingir que ela é figurante nessa história seria desonestidade da minha parte. A mulher comanda o PL Mulher, movimenta plateia, enche estádio de evangélica e tem nome próprio dentro do partido, queira o Paulo ou não. Quando uma liderança desse porte grava vídeo alfinetando o próprio enteado em ano de eleição, o estrago deixa de ser fofoquinha de bastidor e vira racha de família escancarado no meio do palanque.

No fim das contas, sobra picuinha dos dois lados dessa contenda. O Paulo subiu o tom até o último andar, transformou desabafo em sermão e ainda jogou o Alexandre de Moraes no meio pra apimentar, enquanto a Michelle escolheu gravar a mágoa e deixar o recado no ar pro Brasil inteiro assistir. Dois bolsonaristas de peso se estranhando em público bem na largada da campanha, trocando versículo por indireta com o enteado no fogo cruzado. Vou ficar de olho aqui da serra pra ver se a primeira-dama responde ao sermão ou se deixa o Paulo pregando sozinho lá dos Estados Unidos.