No Cosme Velho, meu bem, a cafeteira não descansa e a língua muito menos: hoje o café veio forte, direto do Rio Grande do Sul, com creme de Justiça e açúcar queimado de Ministério Público. Entre um retoque de luzes, um grupo de WhatsApp fervendo e uma amiga famosa chorando porque perdeu seguidor, pousa na minha mesa o pacotão: Nego Di, aquele mesmo do BBB e dos textões dramáticos, foi finalmente enquadrado nas rifas que todo mundo comentava e pouca gente entendia. E quando o babado chega em forma de sentença, minha coluna entra em modo alerta máximo: não é mais “polêmica”, é caso de cadeia com endereço e CEP.
Fato, sem sombra de sombra: a Justiça gaúcha condenou Dilson Alves da Silva Neto, o nosso Nego Di, a 14 anos e 6 meses de prisão em regime fechado por estelionato, lavagem de dinheiro qualificada, uso de documento falso e promoção de loteria ilegal via rifas eletrônicas vendidas nas redes sociais. Segundo a decisão, entre novembro de 2022 e maio de 2024, o influenciador promoveu pelo menos 34 rifas sem autorização legal, oferecendo dinheiro e bens de alto valor, incluindo um Porsche Macan anunciado como prêmio de meio milhão de reais. O golpe atingiu 9.683 pessoas e gerou prejuízo de mais de R$ 185 mil só em uma das frentes, dentro de um esquema que movimentou mais de R$ 2,5 milhões em rifas ilícitas.

E não foi só ele que entrou na dança, viu: a esposa, a influenciadora Gabriela Vicente de Sousa, aparece na sentença como coautora na lavagem de dinheiro, cedeu conta bancária, ajudou a movimentar os valores e saiu do tribunal com pena de 8 anos e 4 meses de reclusão em regime fechado só por esse crime. O roteiro é bem mais complexo do que o story choroso: dinheiro de rifa irregular entrando em conta de terceiro, passando por empresa, aparecendo como compra de carro de luxo, imóvel em capital, Serra e Litoral, tudo para dar cara limpa a um dinheiro que nasceu torto. E quem já acompanha esse casal em modo maratona sabe que não é temporada de estreia: Nego Di já vinha respondendo a processo por estelionato envolvendo uma loja virtual que vendia produtos abaixo do preço e não entregava, com centenas de vítimas e prejuízo na casa dos milhões, além de outras ações por difamação e danos morais.
Na camada digital, o enredo é aquele clássico brasileiro: o processo anda em silêncio no Fórum, a investigação quebra sigilo bancário e telefônico, e nas redes o discurso é de “fui enganado”, “confiei em gente errada”, “não tive intenção”. Vídeos antigos seguem circulando, páginas de fofoca fazem resgate de treta, e os perfis que antes repostavam as rifas agora mudam de assunto como quem nunca ouviu falar em carro de luxo sorteado via pix. As tags sobem em ritmo de revolta de vítima, a galera do BBB relembra a passagem tumultuada dele pelo reality, e a imprensa tradicional trata como caso pesado de crime financeiro, enquanto as colunas de celebridade ainda tentam digerir como transformar rifa fraudulenta em pauta de entretenimento.

Do meu ponto de vista privilegiado de fofoqueira rica com vista para Cristo e radar em delegado, o recado é direto: quem transforma seguidor em bilhete de rifa e pix em esquema milionário de lavagem acaba descobrindo que o algoritmo mais implacável não é o do Instagram, é o do Código Penal. E se tem uma coisa que esse caso mostra com neon piscando é que, no Brasil da celebridade digital, a linha entre “engajamento”, “empreendedorismo” e “estelionato” é fina, mas o portão do regime fechado é grosso, barulhento e não abre com senha de fã-clube.