Monique Medeiros estaria vivendo de forma reclusa desde que deixou o sistema prisional, há pouco mais de duas semanas. Segundo o advogado Hugo Novais, em entrevista ao portal LeoDias, a ex-professora praticamente não sai de casa, recebe ajuda financeira de familiares e convive com ameaças e campanhas de ódio nas redes sociais.
Eu já tinha chegado ao primeiro compromisso da tarde e esperava ser chamada na recepção, com aquela cara de quem está presente mas pensando em outras três coisas, quando li a frase “não vai nem à esquina”. O barulho ao redor diminuiu na hora. Porque o caso Henry Borel ainda carrega uma gravidade que atravessa qualquer fofoca, qualquer título e qualquer tentativa de transformar dor em bastidor.

Monique deixou a prisão após o julgamento que a condenou por tortura por omissão e concedeu perdão judicial pelo homicídio culposo na morte do filho. Jairinho, por sua vez, foi condenado a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão por homicídio duplamente qualificado, tortura e coação no curso do processo.
De acordo com Hugo Novais, a liberdade de Monique não significou retorno à normalidade. O defensor afirma que ela vive uma espécie de “segunda prisão”, evitando exposição pública por medo de represálias. “Ela não sai. Não vai nem à esquina comprar um refrigerante. A vida dela hoje é extremamente restrita por conta das ameaças que continua recebendo”, disse.
O advogado também afirmou que Monique tem dedicado grande parte dos dias ao estudo do processo. Segundo ele, a ex-professora analisa depoimentos, laudos periciais, decisões judiciais e documentos produzidos ao longo da investigação. “Ela conhece esse processo como poucas pessoas conhecem. Estamos falando de mais de 20 mil páginas que ela estuda diuturnamente”, declarou.
Na avaliação da defesa, Monique nunca conseguiu elaborar emocionalmente a morte de Henry. Hugo disse que a batalha judicial, as audiências, as acusações e a prisão tomaram todo o espaço da vida dela nos últimos anos. “Ela nunca conseguiu viver o luto do Henry”, afirmou.
O defensor também criticou a demissão de Monique do cargo público que ocupava na Prefeitura do Rio de Janeiro. Segundo ele, a exoneração teria sido movida por pressão política e não por critérios administrativos convencionais. A defesa ainda avalia se tomará medidas judiciais sobre o caso.
Apesar da liberdade, a fase recursal segue sendo acompanhada de perto. Ministério Público, assistente de acusação e defesa de Jairinho já apresentaram recursos contra pontos da decisão do júri. Hugo afirmou confiar na legalidade do julgamento, mas admitiu temor diante da possibilidade de reavaliação pelos tribunais.

A frase mais polêmica da entrevista veio quando o advogado disse que “o problema da Monique foi nascer mulher”. Para ele, parte da condenação social se explica pela expectativa imposta às mães, como se uma mulher devesse ser capaz de prever e impedir qualquer risco envolvendo um filho. A declaração, claro, deve reacender o debate em torno de um caso que nunca deixou de provocar revolta.
E talvez seja justamente por isso que cada nova informação sobre Monique ainda pesa tanto. Não há leveza possível quando o centro da história é uma criança morta. A defesa fala em reclusão, medo e luto interrompido. A sociedade, por sua vez, continua olhando para o caso Henry Borel como uma ferida aberta, daquelas que não fecham com sentença, recurso ou entrevista.