Alexandre Frota revelou que quase viveu um dos personagens mais marcantes de Quatro por Quatro, novela exibida pela Globo em 1994. Segundo ele, o papel de Raí chegou a ser destinado a seu nome, mas a troca na direção teria mudado tudo. O personagem acabou ficando com Marcello Novaes, que fez par romântico com Letícia Spiller, a inesquecível Babalu.
Eu ainda estava em Ibiza, com a taça ao lado, o aplicativo da novela aberto e a escolha do jantar parada entre “descer para o restaurante do hotel” ou “fingir que sou uma mulher organizada”, quando essa história do Frota apareceu. Bastou ler “perdi papel na Globo por causa de diretor” para eu sentar direito. Bastidor de novela antiga é vinho guardado: quanto mais tempo passa, mais forte fica o cheiro.
Em entrevista ao programa Isso Não é um Talk Show, da Jovem Pan, Frota contou que foi chamado para integrar o elenco da trama de Carlos Lombardi. “Fui chamado para fazer a novela Quatro por Quatro. Seria o Raí. Me entregaram os dez primeiros capítulos, li… Achava o casal Raí e Babalu um pouco parecido com o Apolo e a Tancinha de Sassaricando”, disse, citando o sucesso vivido por ele e Claudia Raia na novela de 1987.

O detalhe delicioso é que Frota também queria saber quem seria sua parceira de cena. “Logo quis saber quem seria a Babalu e soube que seria a Letícia Spiller. Era louco por ela”, admitiu, aos risos. Minha filha, aí já tinha novela antes da novela. Personagem, desejo, expectativa e um futuro casal explosivo no papel. Só faltava a direção não mudar o jogo.
Segundo Frota, Roberto Talma seria o diretor da novela, mas deixou o projeto para seguir para Malhação. A direção geral de Quatro por Quatro passou então para Ricardo Waddington, e o ator diz que percebeu imediatamente que sua escalação corria risco. “O Talma, que seria o diretor, me encontrou e falou que tinha saído de Quatro por Quatro e iria para Malhação. Perguntei quem iria dirigir a novela. Ele me respondeu que seria o Ricardo Waddington. Falei: ‘Porra, fodeu, o Ricardo não gosta de mim. Ele vai me tirar da parada’”, relatou.
Essa frase é puro bastidor de Projac com cheiro de café frio e vaidade ferida. Porque uma coisa é perder papel por teste ruim, agenda, contrato, idade, qualquer desculpa oficial. Outra é o ator dizer que viu a mudança de diretor e já pensou: acabou para mim. Isso é quase previsão astrológica de camarim.
Frota contou que a dispensa veio pouco depois. “Passaram 48 horas e a secretária me ligou para dizer que o Ricardo estava me chamando na sala dele. Quando cheguei, ele disse: ‘Não precisa nem entrar. Queria dizer que mudou a direção. Eu assumi a direção geral da novela. Você não vai fazer mais a novela’”, afirmou.

A facada, segundo ele, ainda veio com nome e sobrenome do substituto. “Respondi: ‘Já esperava, tudo certo’. Aí, ele completou: ‘Mais um detalhe: quem vai fazer é aquele amigo seu, nós vamos de Marcello Novaes’. Aí, eu falei: ‘Está ótimo’”, confidenciou.
E aqui a vida escreveu melhor que o autor. Marcello Novaes entrou, virou Raí, contracenou com Letícia Spiller, fez história com Babalu e ainda conheceu ali sua futura esposa. Os dois viveram juntos por cinco anos e tiveram Pedro Novaes. Ou seja: o papel que Frota diz ter perdido não virou só personagem. Virou casal, memória de novela e árvore genealógica da dramaturgia brasileira.
Apesar da revelação, Frota fez questão de elogiar Marcello. “O Marcello Novaes sempre foi meu amigo. Ele é meu amigo até hoje, adoro de paixão. Ele era um surfista do Leblon e começou a fazer teatro com a gente. Na turma, éramos eu, ele e o Roberto Bataglin. Eu já tinha estourado na TV, o Bataglin também. Levamos o Marcello para fazer um teste, ele ficou no banco de elenco, fez algumas participações…”, contou.
Eu mandei mensagem para o concierge reservando uma mesa no Jara, aqui no The Standard, enquanto pensava nisso: bastidor bom não precisa nem de vilão oficial. Tem diretor que troca elenco, ator que engole seco, amigo que herda papel, atriz que vira par romântico e novela que entra para a história. Frota pode ter perdido Raí, mas ganhou uma história daquelas que todo ex-galã guarda para contar quando a televisão já virou memória e o ressentimento vem servido com risada.