Aqui de Cosme Velho, nessa manhã em que o Rio ainda está decidindo se vai chover, a notícia chegou pelo celular com aquela força silenciosa das perdas que a gente não esperava sentir tanto. Morreu Giovanna Kupfer. E se você está pensando “quem é essa?”, entendo, porque ela passou a vida inteira fora dos holofotes. Mas o cheiro dela você conhece. Todo mundo no Brasil conhece.
A Giovanna Baby nasceu em 1974, em São Paulo, como boutique de roupas infantis de luxo. O que diferenciava não era só o tecido, era aquela fragrância de lavanda desenvolvida na Suíça que impregnava cada peça. Com o tempo, o perfume saiu dos cabides, ganhou frasco, entrou em farmácias, em banheiros, em bolsas de mãe e em memórias que ninguém pediu pra guardar, mas guardou. A marca ajudou a popularizar o conceito de body splash no Brasil inteiro.


A vida da fundadora tinha mais camadas do que o grande público imagina. Nascida em Roma, criada nos Estados Unidos, chegou ao Brasil aos 14 anos e em São Paulo estudou artes plásticas. A marca nasceu da maternidade, quando ela começou a criar roupas para as filhas. Mas nos anos 1990 o negócio entrou em crise, a Giovanna Fábrica teve falência decretada em 1997 e a marca seguiu sob nova gestão, sem ela. Enquanto a Giovanna Baby crescia para mais de 510 produtos e 20 mil pontos de venda pelo país, a fundadora vivia discretamente longe de tudo aquilo.
Tem algo muito bonito e um pouco triste nessa história. A ciência explica que o olfato tem ligação direta com as áreas do cérebro ligadas à memória emocional, daí aquele negócio de um cheiro te transportar de volta à infância em dois segundos. Giovanna Kupfer construiu exatamente isso sem nunca ter sido celebridade, sem reality, sem coluna, sem perfil verificado. Fez uma coisa que bilhões em marketing raramente conseguem: entrou na memória afetiva de gerações inteiras.
Ela foi embora discretamente, como viveu nos últimos anos. Mas há algo poderoso em deixar para trás não uma imagem, não um personagem, não uma polêmica, mas um cheiro. Um frasco de lavanda, rosa chá e saudade que qualquer brasileiro reconhece antes mesmo de ler o rótulo. Isso é uma herança que não vende, não cancela e não desaparece.