Eu lá no Cosme Velho, Brasil em campo, amigas gritando contra a Escócia, narrador falando de cruzamento e eu só vejo uma coisa cruzando mesmo: a notificação no meu celular com vídeo novo da Michelle Bolsonaro. Dou pause no jogo, aumento o som e entra ela, montada no drama, contando que o galego Jair Bolsonaro surtou com remédio, mexeu na tornozeleira eletrônica e acabou arrancado de casa pela Polícia Federal, direto pra superintendência em Brasília. Segundo o próprio ex-presidente, esse episódio foi resultado de paranoia e alucinação por pregabalina e sertralina, remédios que podem causar confusão e alteração de percepção em alguns pacientes.
Na cronologia oficial, a PF pediu a prisão preventiva depois que o filho Flávio convocou vigília e o sistema de monitoração acusou violação da tornozeleira à meia-noite, levando Alexandre de Moraes a ordenar que o ex-presidente fosse recolhido à sede da corporação, sem algemas, mas longe do condomínio Solar de Brasília. Michelle encaixa tudo isso como fundo da novela particular: o “dia que nunca será esquecido”, em que o galego é levado, a família chora e, logo em seguida, começam os ataques de quem se dizia fiel, se gabava e lucrava por ser bolsonarista, chamando a ex-primeira-dama de esposa negligente que estaria “cagando para o marido”.
A parte mais venenosa é quando ela aponta para influenciadores baseados nos Estados Unidos, acusando essa turma de usar o bolsonarismo como business internacional, comandando linchamento virtual do outro lado da fronteira, enquanto o líder cumpre pena de 27 anos por trama golpista e segue entre cela climatizada, frigobar e pedidos de progressão para regime domiciliar. Michelle se vende como esposa obediente, que mantinha compromissos de filiação e lançamento de pré-candidatura no Maranhão e Ceará porque era isso que o galego tinha mandado fazer, enquanto o setor mais radical da direita influenciadora preferia questionar se ela estava fazendo campanha demais e visita de menos.
O pano de fundo é um bolsonarismo em frangalhos: o ex-presidente passa por surto medicamentoso, viola tornozeleira com ferro de solda, tem prisão preventiva mantida e depois migra pra domiciliar com monitoramento apertado, sem celular e com cada passo registrado. A base se divide entre quem insiste em guerra aberta contra o STF, quem fatura reagindo aos vídeos da Michelle em canal de corte e quem aposta em rearranjo mais pragmático no PL. E aí entra a nossa cena de hoje: a ex-primeira-dama, com cenário de desabafo, transformando tornozeleira, remédios e superintendência da PF num roteiro de drama espiritual e político, ao mesmo tempo em que carimba parte dos “fiéis” do galego como covardes que usam o nome Bolsonaro como plano de saúde da própria carreira.