Eu estava, em Sintra, esperando meu travesseiro de amêndoa, quando o telefone começou a tremer no bolso e não parou mais. Eram as amigas do Cosme Velho de um lado e o pessoal de Santana e da Casa Verde do outro, todo mundo mandando a mesma coisa: o velório do Lito. Larguei a fila. Tem notícia que pede silêncio antes de qualquer frase.
Lito Sousa morreu nesta quinta, dia 1º, aos 59 anos. O corpo foi velado nesta sexta no Museu Aeroespacial Paulista, na avenida Braz Leme, em Santana, zona norte de São Paulo, com o salão aberto ao público às 9h. Dezenas de fãs e seguidores passaram por lá. Ao lado do caixão, uma coroa de flores trazia a faixa “Foi ótimo voar com você, papai”. A bandeira do Palmeiras, o time do coração, e uma réplica do 14-Bis completavam a despedida. Ele foi do avião ao futebol sem pedir licença, como sempre falou.

A doença andou rápido. Cerca de quatro meses atrás, um exame de rotina mostrou alteração no PSA e, depois de ressonância e biópsia, veio o diagnóstico de câncer de próstata, de risco classificado como intermediário para baixo. Lito escolheu a cirurgia de retirada total da próstata. Enquanto organizava o tratamento, começou a perder o controle do braço e da mão esquerdos digitando roteiros para o canal, e a coisa evoluiu para dormência e falta de coordenação. Numa viagem aos Estados Unidos, o problema motor e a postura pioraram. De volta ao Brasil, procurou o Hospital Albert Einstein, fez uma série de exames e recebeu o diagnóstico de Creutzfeldt-Jakob, doença rara, fatal e sem cura, causada pelo acúmulo de proteínas anormais no cérebro.
Agora, o porquê de tanta gente chorar esse homem. Foram 36 anos de aviação, passando por Varig, Transbrasil e United Airlines, sendo 27 deles com a mão na graxa como mecânico de aeronaves. De 2015 a 2021, ele dividiu o hangar com o canal. Em 2021 largou a carreira quando percebeu que tinha mais seguidores que a página da própria companhia em que trabalhava. Ao Estadão, contou em 2025 que o começo foi duro, porque trocou um salário muito bom por custo fixo e funcionário para pagar. Pouco depois da saída veio o acidente com o avião de Marília Mendonça, e foi ali que ele passou a falar abertamente e virou a referência que o Brasil procurava. O Aviões e Músicas chegou a 3,6 milhões de seguidores no YouTube.
E ele não ficou só no vídeo. Criou o Lito Group, que nasceu com um CNPJ e chegou a quatro: cursos online e semipresenciais para mecânicos, pilotos e comissários de bordo, pós em Engenharia Aeronáutica, produção audiovisual, palestras e treinamento corporativo, além de inspeção de peças de avião. Montou até um curso para quem tem medo de voar. Ganhou dinheiro ensinando exatamente o que sabia, coisa rara num meio cheio de especialista de ocasião.

Por isso o telefone das minhas amigas não para. Lito era o cara que você chamava na turbulência, no acidente que ninguém entendia, na dúvida boba antes do embarque, e ele respondia com paciência de quem passou a vida debaixo da asa. Daqui de Sintra, onde avião é só risco branco no céu, fica a faixa da coroa na cabeça. Foi ótimo voar com você, Lito.