Eu lá no Cosme Velho, montando sala temática pra ver Brasil e Escócia, almofada combinando com camisa da Seleção, amigas chegando com prosecco, quando boto a entrevista de Janja pra tocar e levo aquele tapa de realidade no meio do blush. Minha filha, a mulher do presidente diz, com todas as letras, que apanha da direita, da esquerda e da imprensa, e que só é tratada com respeito lá fora, enquanto aqui todo mundo quer saber se ela foi de executiva ou econômica. Eu larguei vaso, bandeira e vuvuzela, porque quando primeira-dama reclama de cobertura, a pauta deixa de ser bastidor e vira treta institucional.

O ponto da entrevista à Rede PT é cristalino: Janja se coloca como alvo permanente, cita ataques de todos os lados e inclui jornalistas no pacote, reclamando que suas agendas internacionais somem na cobertura. Ela lembra da missão em Roma, em evento ligado à FAO e à Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, onde discursou e se apresentou como embaixadora no combate à fome, e diz que nenhum veículo brasileiro se interessou pelo conteúdo da viagem, só pela fatura das passagens. Na avaliação dela, o microfone estrangeiro vem com respeito, o nacional vem com planilha de gasto público debaixo do braço.
Aí entra o bastidor que a coluna não esquece: essa mesma viagem à Itália já foi alvo de representação no TCU, nota de oposição no X, cálculo de custo em jornal econômico e discussão jurídica sobre direito ou não de primeira-dama viajar em classe executiva. O Ministério Público chegou a receber pedidos de investigação, que foram arquivados pelo procurador-geral, com argumento de que não havia elemento mínimo de irregularidade e que a participação de cônjuges em agendas oficiais é prática antiga no Brasil institucional. Ou seja, enquanto Janja vende narrativa de missão contra a fome e diplomacia soft power, a imprensa continua puxando o fio do orçamento e da natureza oficial da função, porque é justamente aí que mora o dever de fiscalização.

No mundo digital, o efeito foi previsível: a fala virou corte de vídeo, legenda esquentada, tag subindo com gente acusando a imprensa de machismo e antipetismo, e do outro lado internauta dizendo que primeira-dama não tem cargo e tem que explicar até o brigadeiro do aeroporto. Páginas de política aproveitaram para repostar os números da viagem, perfis de cultura lembraram o xingamento dela a Elon Musk no G20 e o histórico de protagonismo em eventos internacionais, e os grupos de WhatsApp de Brasília já estão discutindo se essa entrevista inaugura fase mais agressiva da comunicação do entorno de Lula. Famosos mais alinhados ao governo deram like discreto, a oposição fez textão sobre privilégio, e a imprensa levou carimbo de vilã em pleno intervalo do jogo.
No fim, o recado da primeira-dama é simples e barulhento: ela quer que a imprensa brasileira olhe para o que faz em Roma com o mesmo entusiasmo com que confere a fatura do cartão corporativo. Só que redação não é assessoria, meu amor, é lugar que conta agenda oficial e também pergunta quem pagou o champanhe do voo, porque dinheiro público não viaja em silêncio. Se Janja resolveu subir o tom, pode preparar o blazer, porque, depois dessa entrevista, cada embarque dela vai vir com manchete, planilha e opinião atravessada, e ninguém vai ficar só torcendo pela Seleção enquanto o placar da transparência tá empatado.