Minha fonte do mercado de franchising me ligou na semana passada com um nível de empolgação que eu só tinha ouvido quando o Nubank abriu capital. “Kátia, o Grupo Trigo comprou a Casa do Pão de Queijo.” Eu precisei sentar. Não porque foi surpresa — era inevitável, como toda fusão corporativa que mistura nostalgia com dinheiro de verdade — mas porque o movimento confirma que Tom Moreira Leite está montando um império alimentício com a seriedade de quem coleciona marcas como outros colecionam obras de arte. A CPQ foi adquirida em fevereiro, chegou à ABF Expo 2026 debaixo das asas do Grupo Trigo e projetou mais de 100 novos contratos de franquia até o fim do ano. Isso é um lançamento. Isso é um debut.
O Grupo Trigo que eu chamo carinhosamente de “A Holding que te alimenta do café ao delivery da meia-noite” já opera perto de 700 restaurantes pelo Brasil com Spoleto, Koni, Gendai, ASA Açaí, China in Box e outros nomes que vivem no seu aplicativo de pedidos. Faturamento de R$ 2,43 bilhões em 2025, considerando franqueados. Dois vírgula quarenta e três bilhões, gente. Isso não é portfólio de marcas, isso é um conglomerado gastronômico com ambição de bolsa de valores e cadeia de suprimentos integrada saindo da operação industrial em Volta Redonda.

A Casa do Pão de Queijo chega à festa com quase 60 anos de história e uma nova receita do produto símbolo — o que no universo corporativo equivale a um reposicionamento de marca completo com nova diretora criativa, novo editorial e novo filtro no Instagram. A estratégia é usar a plataforma de fidelidade e relacionamento com clientes da holding para fazer o consumidor voltar mais vezes, gastar mais e se sentir amado por uma rede de fast food. Personalização em escala. Isso, meus caros investidores de sofá, é o que separa uma rede dos anos 60 de uma marca do futuro.
Na ABF, o Grupo Trigo apresentou ainda novos formatos para seus franqueados: o modelo Kart para ASA Açaí e CPQ, o mini quiosque da ASA Açaí, o store in store reunindo Koni e Spoleto numa mesma operação e o já conhecido Spoleto Piccolo para cidades de até 200 mil habitantes. É uma grade de produtos que parece catálogo de coleção de inverno de grife — cada formato para um perfil de investidor diferente, do empreendedor de primeira viagem ao multimarcas com apetite de fundo de private equity.

Tom Moreira Leite resumiu com aquela frase de CEO que soa bem em qualquer slide de pitch: o futuro da expansão passa por marcas fortes, tecnologia, eficiência e flexibilidade de formatos. Traduzindo do corporativês: o Grupo Trigo quer crescer, quer franqueados com capital, quer que a Casa do Pão de Queijo seja o ativo emocional que abre a porta e a tecnologia seja o que faz você ficar. É uma estratégia velha com embalagem nova — e funciona, porque brasileiros têm memória afetiva com pão de queijo e ansiedade financeira com franquias “seguras”. Combinação perfeita para quem vende sonho de negócio próprio com R$ 2,43 bilhões de argumento.