Eu estava no quarto do hotel em Manhattan, terminando de dobrar roupa antes do embarque desta noite, quando uma fonte querida me mandou o vídeo que o Galvão gravou depois da eliminação. Parei tudo para ouvir, porque quando ele fala desse jeito eu sei que a coisa é séria, e dessa vez era mais que futebol.
O relato começa como um raio-x cirúrgico da derrota. Ele lembra o pênalti perdido por Bruno Guimarães logo no início, a chance de Endrick que entrou com quarenta segundos em campo e adiantou demais a bola cara a cara com o goleiro, e a bola do zagueiro norueguês que quase virou gol contra e foi parar na trave por um triz. Depois vem Erling Haaland, que ficou discreto o jogo inteiro e apareceu duas vezes para resolver, um de cabeça e outro de perna, sem chance para o Alisson, que o Galvão faz questão de elogiar pelas defesas que seguraram o time enquanto deu.

Na parte que mais me doeu, ele entra na escalação e não poupa Carlo Ancelotti. Diz que a entrada de Neymar empurrou Endrick para a ponta e transformou o próprio Neymar em referência de área, de costas para zagueiro alto, exatamente na hora em que o time precisava de gente para aproveitar Vini Jr. pela esquerda. Eu ouvi esse trecho duas vezes, porque dá para sentir a mágoa de quem via o time crescendo jogo a jogo e assistiu à virada de chave errada bem na reta final.
Mas o que me pegou de verdade veio no fecho. Ele agradece aos milhões que o acompanharam, lembra publicações com dezenas de milhões de visualizações e anuncia que aquele foi o último jogo do Brasil que ele narra em Copas do Mundo. Fala em comentar, em apresentar programa, mas deixa claro que, como narrador, a história dele nas Copas fechou ali, com a voz embargada e o coração, nas palavras dele, doído.
Eu larguei a mala de lado por uns minutos só para digerir. Não é sempre que se vê um profissional daquele tamanho encerrar um ciclo inteiro em praça pública, com dor de derrota e gratidão dividindo o mesmo áudio. Quem cresceu ouvindo aquela voz nas Copas do Mundo sabe que hoje o Brasil não perdeu só um jogo, perdeu também o som de uma geração inteira de domingo à tarde.