Décio Piccinini revelou que encontrou a esposa, Heloísa, morta na cama em 1989 e contou que enfrentou anos de sofrimento intenso após ficar viúvo. Eu tinha acabado de chegar de volta ao Cosme Velho, ainda tentando escolher um brinco que não brigasse com o vestido do evento desta quinta, quando uma produtora me mandou o trecho do podcast. Parei diante do espelho com um brinco em cada mão. Porque tem depoimento que atravessa a maquiagem, o compromisso, o horário do motorista e te obriga a sentar.
O jornalista, hoje com 80 anos, falou sobre o assunto no podcast “Intervenção”, comandado por Roger Turchetti. Heloísa, sua segunda mulher, era professora e mãe de seus dois primeiros filhos, Fernando e Marcos. Os dois foram casados de 1974 até a morte dela, 15 anos depois.

“Quando cheguei no meu quarto, minha mulher estava morta”, contou Décio, ao relembrar a noite em que percebeu que algo estava errado. O jornalista disse que havia uma rotina silenciosa entre os dois na hora de dormir e que, naquela ocasião, notou a ausência de qualquer reação dela.
“Passei quatro anos e meio viúvo, completamente pirado. Fiz cada bobagem, cada loucura. Mas consegui criar os dois meninos, um tinha 7 e o outro 13 para 14 anos. Eu não queria mais viver, mas me perguntava: ‘E os meus filhos, quem cria?’”, relatou.
Décio contou que precisou recorrer a tratamento psiquiátrico para atravessar o luto. Segundo ele, a responsabilidade pelos filhos foi decisiva para que continuasse tentando se reorganizar. O veterano afirmou que, já sem a mãe, os meninos não poderiam também ficar sem o pai.
“Dei muito trabalho para psiquiatra. Felizmente, encontrei um que ficou comigo muitos anos”, disse. “Foi um inferno em vida”.
O jornalista também relatou crises de ansiedade ao voltar para casa depois do trabalho. Em momentos de maior fragilidade, buscava formas de se sentir minimamente seguro dentro do próprio quarto. O luto, pelo que ele descreve, não era uma lembrança distante: era uma presença física dentro da casa.
Anos depois, ele se casou novamente. A nova companheira, Maria Auxiliadora, conhecida como Dora, apareceu em sua vida de forma inesperada, quando ele foi trocar os óculos em uma loja. Os dois estão juntos há 33 anos e tiveram uma filha, Veridiana.

Fechei o estojo de brincos devagar depois de ouvir isso. Décio atravessou uma perda brutal, criou dois filhos no meio do desespero, procurou ajuda, caiu, levantou e ainda encontrou amor numa ótica, que é o tipo de roteiro que a vida escreve sem pedir autorização para dramaturgo nenhum. Tem tarde que começa com compromisso social e termina lembrando que ninguém sabe o tamanho da dor que mora atrás de um rosto conhecido da televisão. E, sinceramente, hoje até o vestido ficou mais silencioso.