Minha gente, eu estava descendo a rua para a caminhada na Lagoa quando o telefone tocou às sete da manhã de um domingo. Era a Viviane, minha amiga médica que trabalha em infectologia e que só me liga fora de hora quando o assunto é sério de verdade. Ela disse três palavras: “Cátia, tá rolando.” Voltei correndo para casa, sentei no escritório, botei o café e liguei o computador. Domingo de ebola no Brasil, gente. Domingo.
O caso do Rio é o seguinte: um turista belga chegou à cidade vindo de Uganda, na África, que está no epicentro do surto atual de ebola. O homem apresentou tosse, calafrios e diarreia, foi buscado em casa por ambulância especial com equipe em equipamento de proteção completo e transferido para o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, referência nacional para esse tipo de atendimento. Um primeiro exame deu positivo para malária. A suspeita de ebola, no entanto, não foi descartada, e os exames específicos só ficam prontos na segunda-feira. A Vigilância Epidemiológica já está rastreando todos os contatos que ele teve no Rio.
O caso de São Paulo é mais grave e mais complexo. Um imigrante de 37 anos oriundo da República Democrática do Congo, que fez viagem recente ao país, deu entrada numa UPA com febre alta e piora rápida, precisou ser intubado ao chegar ao Instituto de Infectologia Emílio Ribas, e está sedado, o que significa que as autoridades ainda não conseguiram confirmar exatamente em quais províncias do Congo ele esteve, informação essencial para avaliar o risco real. Um exame identificou meningite meningocócica.
A suspeita de ebola, mesmo assim, permanece aberta porque os exames específicos para o vírus só saem na segunda-feira. Pessoas que tiveram contato com ele na UPA e no avião estão sendo monitoradas.
O contexto que a maioria das coberturas está pulando: o surto atual não é o ebola Zaire, o mais famoso, aquele com taxa de mortalidade histórica de até 90%. É o ebola Bundibugyo, uma cepa diferente, com taxa de mortalidade de 13% segundo a OMS. No surto atual, são 134 casos confirmados e 18 mortes, com outros 906 casos e 223 mortes ainda em investigação. Não há vacina nem tratamento específico aprovado para essa cepa. A ONU garantiu esta semana que o risco para voos internacionais é baixo, mas o protocolo brasileiro está em nível máximo.
Os especialistas pedem calma, a palavra “pânico” aparece nas notas oficiais mais vezes do que o próprio nome do vírus, e os resultados definitivos chegam segunda-feira. Enquanto isso, o Rio e São Paulo têm cada um um paciente isolado, a Fiocruz e o Emílio Ribas trabalhando no domingo, e a Cátia aqui informando que domingo tranquilo no Brasil é ficção científica.