Eu estava em Ibiza, cabelo solto secando no vento, maiô novo, copo suando na mão, quando o telefone tocou e me arrancou da espreguiçadeira num pulo só. Dora e Ademir se separam em Quem Ama Cuida. Separação de verdade, com mulher olhando na cara do marido e avisando que não aceita justificativa nenhuma. Eu quase derrubei o protetor solar na areia. Venho para o Mediterrâneo fingir que estou de férias e a Globo resolve destruir um casamento bem na minha semana de descanso.
As cenas vão ao ar a partir desta sexta, dia 31, e o estrago começa quando a denúncia de Suely, vivida por Julia Stockler, joga a vida de Ademir, o Dan Stulbach, em praça pública. A imagem dele passa a sentir o impacto do crime que teria cometido e o casamento desmorona junto. Dora, na pele de Mariana Ximenes, se recusa a engolir as justificativas do marido. Para ela, a exposição pública do caso é o menor dos problemas. O que arrasa é a possibilidade de ter dormido anos ao lado de um homem que escondia o próprio comportamento. Ela se afasta, questiona o relacionamento inteiro e cobra que ele encare as consequências. Ademir faz o de sempre, tenta diminuir o tamanho da coisa, jura que precisa de uma nova chance, corre atrás da reaproximação e ainda aparece preocupado em recuperar a família e a própria imagem diante da esposa. Chega a pedir socorro para Carmita, a Deborah Evelyn, e para André, o Henrique Barreira, para convencerem Dora a deixar ele voltar para casa. Encontra porta fechada e resistência crescendo a cada tentativa.

Globo/ Angélica Goudinho
Quem Ama Cuida é criada e escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, com colaboração de Wendell Bendelack, Martha Mendonça, Julia Laks e Bruno Segadilha, e sai dos Estúdios Globo com direção artística de Amora Mautner e direção de dramaturgia de José Luiz Villamarim. Traduzindo, esse casamento não caiu por acidente, caiu por decisão de gente que sabe exatamente onde dói. Meu telefone tocou antes de o comunicado oficial circular e o que ouvi foi que a sequência foi gravada em clima pesado. Dizem nos corredores que a cena da recusa saiu redonda logo nas primeiras tomadas, e eu registro isso como comentário de bastidor, não como fato consumado. Fato mesmo é que a emissora anunciou a separação com antecedência, e em novela das nove isso significa uma coisa só, vem coisa pior chegando.
Dora está certa e eu assino embaixo com as duas mãos. Mariana Ximenes construiu uma mulher que passou a novela inteira sendo compreensiva e agora descobre que compreensão demais vira cegueira. Ademir é aquele tipo de personagem que me tira do sério, o homem que erra feio e ainda chega em casa com cara de vítima. E repare na esperteza. Em vez de pedir perdão para a esposa, ele pede ajuda para os amigos convencerem a esposa. Já vi esse golpe em três novelas e numa assembleia de condomínio. Carmita e André que se cuidem, porque quem entra de mediador em separação alheia sai queimado dos dois lados. Se fosse Vale Tudo, Ademir estaria fazendo estágio no departamento de desculpa esfarrapada.

Meu veredito sai agora e sem tribunal. Eu torço para que Dora não abra essa porta nem por engano. Que Ademir durma no sofá do amigo, apanhe da própria consciência, veja a imagem virar pó e descubra que casamento não se conserta com discurso ensaiado. E que a denúncia de Suely seja levada a sério até o fim, porque acusação de mulher em novela costuma demorar vinte capítulos para virar prova. Se depender de mim, Dora vira a personagem do ano e Ademir termina sem casa, sem família e sem plateia. Vou buscar meu protetor solar e esperar sexta com a televisão ligada, porque essa separação está só começando.