Kátia Flávia saiu da academia em Leblon pingando suor, faminta, com a endorfina gritando, pensando só no prato feito que a esperava no Cosme Velho. No caminho, abre o celular para matar tempo no trânsito e dá de cara com Virginia, impecável de branco em Nova York, dizendo que precisou fugir correndo do museu do 11 de Setembro porque a energia estava pesada demais. A diva aqui, que sabe o que é energia pesada de verdade – fila da academia às 7h da manhã, boleto vencido e ar-condicionado quebrado quase engasgou com o whey.
Não é que Virginia tenha errado em passar mal, atenção. Mal-estar em lugar de tragédia é o mínimo que se espera de quem ainda tem algum grau de humanidade. O problema é o roteiro pronto, com começo, meio, fim e filtro clarinho: look do dia, tour turístico, close do rosto sério, relato da “energia pesada” e, em seguida, o corte seco para o próximo rolê com brunch e compra na Quinta Avenida. A dor entra como cenário, não como pausa.

O Memorial do 11 de Setembro não é só “mais um ponto turístico” para ticar do check-list do roteiro de Nova York. É um museu construído em cima do buraco onde ficavam as Torres Gêmeas, com destroços retorcidos, áudios de despedida, fotos de corpos, vídeos dos aviões se chocando, nome por nome das quase três mil vítimas gravado no mármore. É um lugar pensado para doer, para lembrar que o mundo parou naquele dia – não para garantir story perfumado em 4K.
Mas a cultura do turismo de tragédia, meu amor, não perdoa nem cemitério. A mesma lógica que lota visita guiada em campo de concentração, passeio por cidade radioativa e tour em cena de crime agora aparece em versão influencer premium, viajando de jatinho, com equipe, stylist e agenda cronometrada de conteúdos. A diferença é que, no feed, a história vira cenário – e o sofrimento, textura de fundo.
Quando Virginia diz que sentiu a “energia pesada” e que havia “muita foto de sangue”, ela verbaliza uma sensação que muita gente tem ali dentro só que a maioria guarda para terapia, não para o close aberto em tempo real. O museu é feito justamente para lembrar que aquilo não foi filme, foi carne, foi gente. Chocar faz parte da proposta, não é defeito da decoração. Só que, aos olhos da era do entretenimento eterno, qualquer impacto vira “experiência intensa” digna de react.
O que espanta não é ela sair. Sair é saudável. O espanto está em como tudo precisa virar conteúdo imediatamente. A gente não tem mais o direito de sentir e digerir em silêncio. Há sempre um seguidor esperando o desabafo, um editor esperando o corte perfeito da lágrima no olho, um algoritmo esperando o pico de engajamento. Se não foi filmado, não aconteceu; se não houve registro do mal-estar, não houve profundidade.
Enquanto isso, os próprios espaços de memória já se acostumaram com o combo tripé + ring light. É visitante rindo alto em ambiente de homenagem, gente tirando selfie abraçada a painel de vítimas, casal fazendo foto de beijo com placa de “silêncio e respeito” ao fundo. A linha tenue entre homenagem e espetáculo virou traço de delineador: fininha, molhada e pronta para borrar a qualquer emoção mais forte.
No caso de Virginia, a dramaturgia vem completa. A influencer milionária, que vive de mostrar a vida perfeita, esbarra num capítulo da história em que a vida é tudo, menos instagramável. De repente, o look branco, as joias, o cabelo milimetricamente alinhado são engolidos por imagens de fogo, fumaça e desespero. O contraste é brutal – e, por isso, tão simbólico. É o embate entre o feed e o fim.
Não dá para negar que existe, sim, uma camada humana ali: talvez ela tenha lembrado dos filhos, do medo de avião, da sensação de que tudo pode acabar em um segundo. É legítimo querer ir embora. O problema é que, no fim, a narrativa que chega ao público é editada como mais um episódio da série “minha vida extraordinária”: “fui ao museu, passei mal, compartilhei com vocês, amores”. O luto entra no mesmo pacote em que entram skincare, challenge de dancinha e publi de suplemento.
Esse tipo de exposição em tempo real molda o jeito como a gente consome tragédia. Em vez de se perguntar “o que aconteceu aqui?” ou “quem morreu e por quê?”, a audiência passa a se perguntar “como a minha influenciadora favorita reagiu a isso?”. A bússola moral troca de polo: o acontecimento sai do centro e quem ocupa o lugar é o protagonista do story. A ferida histórica vira coadjuvante na novela diária do feed.

Kátia, suada no banco do Uber, pensa na ironia: o Memorial do 11 de Setembro foi criado para impedir que o 11 de Setembro virasse só mais uma data em livro de história. Mas a lógica do turismo de tragédia e do conteúdo infinito dá um jeito de transformar até isso em atração de temporada. Você entra, se emociona, posta, sai e segue para o próximo ponto da lista. É como se a memória coletiva virasse cenário rotativo de parque de diversões emocional.
No fim das contas, o “mal-estar” de Virginia é um espelho desconfortável. Ele nos obriga a encarar o quanto a gente normalizou fazer peregrinação à dor alheia em busca de algum tipo de catarse, engajamento ou autenticidade para o nosso próprio roteiro. A dor do outro é sempre mais cinematográfica, mais editável, mais fácil de enquadrar do que a nossa.
Talvez a verdadeira energia pesada não esteja só no subsolo de Nova York, mas na leveza com que a gente cruza a catraca desses lugares de luto já com o celular em modo gravação. Enquanto isso, Kátia segue para o Cosme Velho, faminta, pensando que respeito, em museu de tragédia, começa justamente onde termina a vontade de transformar tudo em clipe pro Instagram.