Eu estava em casa, no Cosme Velho, terminando um suco de melancia antes de pegar o carro para a academia no Leblon, quando o telefone tocou com uma fonte assim: “Kátia, a Deolane foi presa de novo.” Parei, sentei, e perguntei: “Dessa vez é diferente?” A resposta veio sem hesitar: “Completamente diferente.”
A Operação Vérnix, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil na manhã desta quinta-feira, prendeu Deolane Bezerra de forma preventiva em Alphaville, na Grande São Paulo. A investigação apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC, com Marcola, já preso, e familiares da cúpula da facção entre os alvos. Seis mandados de prisão preventiva foram expedidos, com buscas e apreensões cumpridas em imóveis ligados à influenciadora em Barueri.

O esquema, segundo o MP e a Polícia Civil, funcionava por dentro de uma transportadora de fachada em Presidente Venceslau, no interior paulista, usada para movimentar recursos ilícitos da organização. Deolane teria recebido depósitos fracionados em espécie entre 2018 e 2021, prática conhecida como smurfing, totalizando mais de R$ 1 milhão. Outras duas empresas ligadas a ela receberam R$ 716 mil de uma suposta instituição de crédito, sem contratos ou serviços que justificassem os repasses. O detalhe que deixa qualquer um de boca aberta: as investigações começaram em 2019. A polícia monitorou Deolane por sete anos antes de bater na porta.
O nome dela chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol durante as apurações, e ela passou as últimas semanas em Roma. Retornou ao Brasil na quarta-feira, véspera da operação, e foi presa na manhã seguinte. Trinta e nove veículos de luxo foram apreendidos, avaliados em mais de R$ 8 milhões, e os bloqueios patrimoniais determinados pela Justiça ultrapassam R$ 357 milhões. Um influenciador digital apontado como filho de criação dela e um contador também foram alvos das buscas.

Em setembro de 2024, Deolane havia sido presa na Operação Integration, da Polícia Civil de Pernambuco, por suspeita de lavagem de dinheiro e jogos ilegais, e saiu com habeas corpus. Desta vez, o endereço do processo é outro: PCC, Marcola e prisão preventiva. O habeas corpus que funcionou na primeira rodada vai precisar de um esforço muito mais criativo para tirar ela daqui.