Deolane Bezerra voltou ao centro da investigação da Operação Vérnix após responder “trabalhando” ao ser questionada se lavava dinheiro para Marcola, apontado pelas autoridades como líder do PCC. Eu já estava instalada no Jardim Botânico, diante de um suco de melancia geladíssimo, porque sexta-feira sem suco de melancia é só uma quinta usando fantasia, quando minha fonte da televisão parou no meio da frase, virou o celular para mim e disse: “Kátia, olha isso aqui.” Li a resposta, li de novo, pedi para repetir o suco. Porque tem palavra que sai pequena da boca e chega gigante no inquérito.
A fala aconteceu nesta quinta-feira (21), quando Deolane deixou o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), em São Paulo, sob escolta policial. Ao ser perguntada por uma repórter da GloboNews se gostaria de dizer algo em sua defesa, a influenciadora respondeu: “Que a Justiça vai ser feita”.

Em seguida, veio a pergunta que incendiou a internet: se ela estaria “lavando dinheiro para o Marcola”. Deolane não parou para conversar com os jornalistas, mas rebateu: “Trabalhando”, antes de entrar no carro da polícia.
A influenciadora foi presa durante operação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil que apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital. Segundo as investigações, a estrutura usava uma transportadora de cargas como empresa de fachada para movimentar recursos atribuídos à facção, com repasses por contas de terceiros e empresas ligadas aos investigados.
Enquanto a investigação avança, uma entrevista antiga de Deolane voltou a circular por causa da explicação que ela deu sobre a própria fortuna. Em 2022, ao falar sobre ostentação, ela afirmou que seu patrimônio vinha da advocacia e do trabalho desde muito cedo.
“E eu trabalhei muito, me formei com 22 anos, tenho meu escritório montado desde 2017. Comprei meu apartamento muito jovem. Tudo que eu ganhava com a advocacia, eu usava para viajar, comprar coisas de grifes, porque aquelas contas que você tem que pagar para sobreviver, eu já não precisava. Então eu trabalhava para caramba, fazia três, quatro flagrantes no dia, processos, audiências quase todo dia. Mas as pessoas não vêem você trabalhando, só vêem você no shopping. E a minha vida vem de muito trabalho, desde muito nova. Eu trabalho desde os meus 12 anos de idade“, disse a influenciadora em entrevista ao UOL.
Para os investigadores, no entanto, o padrão de vida exibido por Deolane seria incompatível com sua renda formal. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em contas ligadas à influenciadora, além do sequestro de bens, incluindo carros de luxo avaliados em milhões.
Relatório policial obtido pelo Metrópoles classifica Deolane como integrante do PCC e peça importante no suposto esquema de lavagem com a transportadora de fachada. Segundo o promotor Lincoln Gakiya, ela teria aberto 35 empresas no mesmo endereço para ocultar patrimônio e dificultar o rastreamento das autoridades.
A defesa de Deolane nega irregularidades e afirma que a prisão foi desproporcional. Em nota, os advogados sustentaram a inocência da influenciadora e disseram confiar na Justiça.

“Por hora e como o devido acatamento, consideramos desproporcionais as medidas firmadas em face de Deolane e esta banca de defesa seguirá cooperando tecnicamente com a Justiça para demonstrar a licitude de suas atividades na condição de advogada que é, confiando plenamente no discernimento, na razoabilidade e na imparcialidade do Poder Judiciário.”
Minha fonte tentou voltar ao assunto da televisão, mas já era tarde. A mesa inteira estava tomada por Deolane, Marcola e uma resposta de uma palavra só na porta da delegacia. O problema é que, quando a Polícia Civil, o MP e a Justiça começam a perguntar para quem, como e por onde esse dinheiro andava, até o suco de melancia perde a doçura.