Eu estava em casa, no Cosme Velho, terminando de arrumar a sala pra ver o jogo do Brasil, quando uma amiga jornalista me ligou direto da redação da O Globo. “Liga o videocast da Maria Fortuna agora, que a Cláudia Raia botou tudo na mesa.” Larguei o controle remoto, sentei na poltrona e dei o play. Quando a coisa promete assim, o jogo espera.

E não é que a Cláudia abriu o coração de um jeito que pouca gente desse meio tem coragem? A atriz assumiu que se arrependeu de ter feito campanha pro Fernando Collor em 1989, aquela época em que ele a chamava de “pé de coelho” e ela aparecia nos comerciais pedindo voto. Hoje ela canta outra: “Eu votei no Lula, me posiciono, só não quero fazer da minha vida um palanque.” E quando perguntaram de que lado ela está, a resposta veio sem tremer: “Eu sou esquerda. Sou centro-esquerda, esquerda.”

Mas o que me arrepiou mesmo foi ela relembrar o preço que pagou por aquela campanha. Na época correu um boato cruel de que ela teria um caso com o Collor e, a partir de um comentário sobre a magreza dele, inventaram a mentira de que os dois estavam com HIV. Um jornalista chegou pra ela num evento e perguntou na lata: “É verdade que você é HIV positivo?” A mulher quase desmaiou ali mesmo, achando que carregava uma doença que nem ela sabia.
Desesperada, ligou pro médico Mário Bronstein implorando por um exame, e naquele tempo o resultado demorava até vinte dias pra sair. Pra provar que estava limpa, a Cláudia foi parar na capa da IstoÉ segurando o próprio laudo negativo. O teatro dela esvaziou porque ninguém queria chegar perto, e ainda quebraram os carros e reviraram as contas dela, um pesadelo que ela jura não ter vindo como vingança política, mas que custou caríssimo. Agora que o vídeo viralizou, a turma das redes se dividiu entre aplaudir a sinceridade e desencavar o comercial de 89 pra rodar solto na timeline.
O que eu admiro nessa história toda é que a Cláudia não tentou maquiar o passado nem se fazer de coerente desde sempre. Assumiu que errou, lembrou que quase o Brasil inteiro errou junto com ela naquele ano, e contou pra onde o voto foi parar depois. Num meio em que todo mundo jura ter estado do lado certo a vida toda, ver alguém colocar o recibo inteiro em cima da mesa já vale o ingresso.