A crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro é o capítulo mais recente de um histórico familiar marcado por disputas políticas envolvendo as mulheres com quem Jair Bolsonaro foi casado. Segundo O Globo, Rogéria, Ana Cristina Valle e Michelle passaram por cargos, candidaturas, rixas internas e investigações que atravessaram a trajetória do clã.
Eu tinha acabado de tirar uma pilha de revistas da mesa achando que aquilo me daria paz espiritual, quando caiu essa retrospectiva das mulheres de Bolsonaro. Parei com uma Vogue antiga na mão e pensei: isso não é família, é temporada longa de reality político com núcleo feminino, disputa por sobrenome e roteiro escrito por assessor em crise.
O caso mais recente é Michelle. A ex-primeira-dama se irritou com Flávio, relutou em embarcar na pré-campanha do enteado e chegou a deixar o comando do PL Mulher. A crise acendeu alerta no entorno do senador porque Michelle tem força justamente em setores que ele tenta mobilizar, como mulheres e evangélicos.

Mas Michelle não foi a primeira a viver tensão com os filhos de Bolsonaro. Em 2000, já divorciado de Rogéria, Jair Bolsonaro colocou Carlos Bolsonaro para disputar uma vaga na Câmara do Rio contra a própria mãe. Carlos tinha 17 anos, foi eleito, e Rogéria, que já havia vencido eleições usando o sobrenome Bolsonaro, acabou sem recondução.
Pausa dramática para absorver: o filho entrou na eleição contra a mãe, com o pai por trás da jogada política. Isso não é só conflito familiar, é almoço de domingo com urna eletrônica no centro da mesa.
Depois veio Ana Cristina Valle, mãe de Jair Renan. A união com Bolsonaro durou de 1997 a 2008 e foi acompanhada por compra de imóveis e terrenos. Segundo a reportagem, o casal construiu patrimônio com 14 imóveis ou terrenos, cinco deles pagos em espécie.
Ana Cristina também apareceu nas investigações sobre supostas “rachadinhas” ligadas a Flávio e Carlos Bolsonaro. Ela não foi denunciada, mas foi apontada como peça importante em um dos núcleos investigados, depois da nomeação de dez parentes no gabinete de Flávio. O Ministério Público analisou dados bancários da família dela e verificou saques em espécie de R$ 4 milhões de um total de R$ 4,8 milhões pagos em salários no período considerado.
A segunda mulher de Bolsonaro ainda teve o sigilo quebrado em investigação sobre outra suposta rachadinha, a de Carlos, de quem foi chefe de gabinete na Câmara do Rio. Ou seja, a política entrou pela porta da família, sentou no sofá e nunca mais foi embora.

Em uma carta de 2007 obtida pelo UOL em 2022, Ana Cristina desabafou sobre problemas no relacionamento e citou atritos ligados a Carlos. “Por dois anos, eu o amei, amparei e socorri todos os seus medos e em troca tive o título de sedutora de menor”, escreveu. A frase é pesada, íntima e mostra que o conflito entre madrastas, filhos e poder não começou agora.
Ana Cristina também tentou usar a força do sobrenome. Em 2018, disputou vaga de deputada federal no Rio com o nome de urna “Cristina Bolsonaro”. Em 2022, repetiu a estratégia no DF, tentando ser deputada distrital. Não se elegeu. Michelle, segundo o Globo, nunca gostou dessa tentativa de carona no nome.
Rogéria também tentou voltar ao jogo. Em 2020, concorreu novamente à Câmara do Rio, dessa vez em acordo com Carlos e o ex-marido, mas sem engajamento forte de Bolsonaro. Teve cerca de 2 mil votos. Agora, foi escolhida como suplente de Márcio Canella, pré-candidato ao Senado pelo Rio, mas a candidatura dele ficou em xeque após prisão em flagrante por posse ilegal de fuzil.
E ainda tem aliado sugerindo que Flávio escolha a própria mãe, Rogéria, para uma vaga ao Senado pelo PL. Minha filha, se isso acontecer, a árvore genealógica vira organograma de campanha. A família Bolsonaro conseguiu transformar casamento, divórcio, gabinete, candidatura e rixa doméstica numa coisa só.
A briga entre Michelle e Flávio parece menos um raio em céu azul e mais reprise com elenco renovado. No clã, mulher nunca foi apenas figura decorativa. Foi cabo eleitoral, assessora, candidata, investigada, rival, vitrine e problema. A fofoca política aqui não mora ao lado do poder. Ela dorme dentro de casa.