A protagonista do dia tem nome e cargo: Celina Leão. A governadora do Distrito Federal saiu da segunda audiência de conciliação no STF e foi logo anunciando que o acordo para salvar o Banco de Brasília (BRB) estava fechado, em tom de quem entregou um milagre. Liguei na hora para dar os parabéns, porque a Celina é amiga de longa data, e ela atendeu emocionada, repetindo que aquele era “um dia de gratidão” para a população. Cravou que, na data de hoje, devolveu o BRB “definitivamente à população de Brasília”, e quem acompanhou o perrengue dos últimos meses sabe que ali não tem força de expressão.
E a Celina fez questão de distribuir os créditos do roteiro. Agradeceu a anuência do presidente Lula, o empenho do ministro Jorge Messias na AGU, de Dario Durigan na Fazenda e do ministro Luiz Fux, que conduziu pessoalmente a conciliação até a homologação. No meio dos agradecimentos, soltou a frase que vai render comentário em Brasília por dias, dizendo que “Brasília sempre vai estar acima de qualquer questão ideológica”. Governadora do PP elogiando ministro de Lula em pleno Supremo é o tipo de cena que, em ano pré-eleitoral, vale por mil discursos.

Agora o detalhe técnico que a Celina explicou e pouca gente captou, que é como levantaram o dinheiro sem a União botar a mão no bolso. O empréstimo de até R$ 6,6 bilhões sai do FGC, o fundo dos próprios bancões, abastecido por dinheiro das instituições financeiras, sem entrar verba pública, com fiança de um sindicato dos maiores bancos do país. Como contragarantia, o GDF empenhou as cotas do Fundo de Participação dos Estados e do Fundo de Participação dos Municípios, colocando o próprio repasse federal como penhor. A União não deu aval, apenas afrouxou o teto que limitava o crédito do DF a R$ 900 milhões e tirou o governo da nota de risco tipo C, e a governadora garantiu que quem paga a conta é o próprio BRB, em quinze anos com dois de carência.
O que a Celina não disse com todas as letras, mas todo mundo sabe, é de onde veio o estrago. O BRB quase quebrou depois de comprar mais de R$ 12 bilhões em carteira podre do Banco Master, e a parte mais sangrenta do acordo é que o dinheiro recuperado nas delações do dono do Master, Daniel Vorcaro, e do ex-presidente do banco, Paulo Henrique Costa, vai entrar prioritariamente para abater o empréstimo. O PH está preso, acusado de embolsar R$ 146 milhões em propina, e o Ibaneis, que renunciou ao Buriti para tentar o Senado, deixou justamente esse rombo na mão da vice. A Celina assumiu o governo com a bomba no colo e hoje aparece como quem desarmou ela sozinha.
Por isso essa coletiva teve gosto de cena final de novela, com a mocinha provando que aguentou o tranco. A leoa do Buriti pegou um banco estatal à beira do precipício, costurou no Supremo uma solução com dinheiro de banqueiro e troco de delação, e ainda terminou o dia agradecendo o governo Lula sem o menor pudor de partido. Desliguei o telefone com ela ainda rindo, porque quem assinou embaixo da própria sobrevivência política, em rede nacional, foi a governadora.