Estava no carro, saindo do Cosme Velho para resolver a vida desta segunda-feira, quando o telefone não parou mais. Três amigas em sequência, todas com o mesmo assunto: Cassia Kis, 68 anos, ex-Globo, atriz de carreira construída tijolo por tijolo durante décadas, acaba de ganhar mais uma denúncia criminal. Mandei o motorista dar uma volta e fui apurando.
O caso aconteceu na sexta-feira (24), no Barra Shopping, zona sudoeste do Rio. A mulher trans Roberta Santana conta que aguardava na fila do banheiro feminino quando foi abordada pela atriz, que questionou sua presença no local com comentários que Roberta descreveu como absurdos e deploráveis. O ativista LGBTQIA+ Agripino Magalhães Júnior levou o requerimento ao Ministério Público, que confirmou ontem a instauração das diligências para esta segunda. Cassia será intimada a apresentar sua defesa.



O problema é que isso não chegou sem histórico: a atriz já é ré por homofobia desde outubro de 2024, quando a Justiça Federal aceitou queixa-crime movida pelo Coletivo Antra e pelo ator José de Abreu. A origem daquele processo foi uma entrevista à jornalista Leda Nagle, em 2022, com declarações sobre casais homoafetivos e “destruição da família”. O caso corre na 2ª Vara Federal do Rio, com multa potencial de até R$ 1 milhão. Agora a conta pode dobrar.
Procurada ontem pela Folha por telefone e e-mail, Cassia visualizou e não respondeu. Nas redes, o nome dela foi parar nos trending topics em poucas horas, com o relato de Roberta Santana circulando em páginas de fofoca, perfis LGBTQIA+ e jornalistas. O silêncio, neste contexto, está funcionando muito mal.
Duas denúncias criminais por discriminação em menos de dois anos, nenhuma palavra pública de esclarecimento e o MP batendo na porta nesta manhã. Cassia Kis construiu uma carreira admirável, e é exatamente por isso que o histórico que ela está acumulando pesa tanto.