Estava aqui em Cosme Velho temperando o pettuccine que vou servir para as minhas amigas hoje à tarde, uma daquelas rodas de almoço que começam com taça de vinho e terminam com segredo de todo mundo contado, quando resolvi ligar pro Brad para contar que o Brasil inteiro estava falando dele. Discou, discou, caiu na caixa. Típico. E aí eu lembrei: mesmo que ele atendesse, o Brad precisaria que eu me apresentasse. Ele não ia reconhecer minha voz de imediato não porque não somos próximos, mas porque Brad Pitt sofre de prosopagnosia, o distúrbio neurológico que compromete a capacidade de reconhecer rostos, e que desde 2013 ele tenta explicar ao mundo sem que ninguém acredite nele. Desde 2022, quando abriu o assunto de novo na GQ, o assunto volta toda vez que ele aparece na mídia. Voltou hoje.
O que me intriga, e eu disse isso pro pettuccine enquanto mexia o molho, é a ironia que ninguém nomeia direito: Brad Pitt construiu uma das carreiras mais milionárias da história de Hollywood vendendo exatamente um rosto. Cada contrato com a Chanel, cada pôster de Fight Club, cada capa de revista dos anos 90 era um acordo firmado com a memória visual do público. O mundo inteiro processa a face dele em fração de segundo. O próprio Brad não consegue fazer isso com ninguém. Ele foi o produto mais reconhecível do cinema de uma geração, e o cérebro dentro desse produto não reconhece produto nenhum. Isso não é detalhe curiosidade de domingo, isso é a maior ironia da cultura pop dos últimos trinta anos.
E tem mais. Passei anos ouvindo que Brad Pitt era arrogante, frio, que passava por pessoas conhecidas sem dar bom dia, que Jennifer Aniston dizia que ele simplesmente “não estava lá”. O mundo construiu durante décadas a narrativa do galã narcisista que se acha acima de cumprimentar os outros. O que a prosopagnosia faz é jogar essa narrativa inteira pela janela. Ele passava por pessoas sem reconhecê-las porque literalmente não as reconhecia. Não era pose de estrela, era uma falha no giro fusiforme direito do cérebro, a região responsável pela percepção de faces. Ele mesmo disse, com vergonha, que teme ser visto como inacessível e que quer muito se lembrar das pessoas que conhece. Décadas de reputação destruída por uma condição que ele não escolheu e que por muito tempo não sabia nem nomear.
A prosopagnosia, segundo os institutos neurológicos americanos, existe em graus que vão do leve ao severo. No extremo, a pessoa não reconhece nem o próprio rosto no espelho. Não se sabe onde Brad Pitt está nessa escala porque ele nunca recebeu diagnóstico oficial, apenas se autodiagnosticou em entrevistas. O que se sabe é que ele usa voz, jeito de andar e cabelo para identificar as pessoas à sua volta, incluindo a namorada Ines de Ramon, com quem apareceu na semana passada em Hydra, na Grécia. Toda vez que Brad Pitt entra numa sala, ele está resolvendo em tempo real um problema que para o resto de nós nem existe enquanto problema. Agora, se alguém me disculpe, minhas amigas chegam em quarenta minutos e o pettuccine não termina sozinho.