Sábado cedo em Cosme Velho, café ainda quente, e meu celular começou a encher de mensagens sobre um ator canadense chamado Stewart McLean. O nome pode não dizer nada para quem não acompanha a indústria de Vancouver, mas qualquer fã de Virgin River já o viu sem saber: era ele o frequentador de bar no episódio da sétima temporada, aquele rosto que preenche o plano de fundo com a naturalidade de quem conhece o espaço de verdade. Conhecia, sim. McLean morava em Lions Bay, Colúmbia Britânica, a exatos vinte quilômetros de Vancouver, dentro do cinturão geográfico onde a Netflix filma a série há anos. Não era um ator que viajava para o set. Era um ator que abria a janela de casa e enxergava o cenário.
Ele tinha começado na indústria em 2015, com um papel sem crédito num curta estudantil, e foi construindo uma carreira do jeito mais honesto possível: personagem por personagem, série por série, curta por curta. Arrow, Supernatural, Travelers, The 100, Siren, Beyond. Nomes grandes, papéis pequenos, mas cada um deles com a marca de um profissional que chegava preparado e fazia a vida do elenco principal mais fácil. Sua agente na Lucas Talent, Jodi Caplan, o representou por mais de dez anos e disse o que os diretores de casting disseram em uníssono quando souberam da morte: era um cara de verdade, dedicado, engraçado, impossível de esquecer mesmo quando o papel não tinha nome.
O que ninguém ainda parou para olhar direito é a ironia perturbadora da filmografia. Nos últimos anos, McLean havia trabalhado em “Happy Face”, a série true crime da Paramount+, e em “Murder in a Small Town”, o drama policial da Fox. Um ator que dedicou parte da carreira a reencenar crimes reais e assassinatos em cidades pequenas foi encontrado morto numa pequena cidade costeira, numa investigação de homicídio real. A polícia não divulgou a causa da morte. Não há suspeito. A equipe do IHIT, o time especializado em homicídios da Real Polícia Montada do Canadá, assumiu o caso em 20 de maio e segue coletando imagens de câmeras de segurança e reconstruindo a linha do tempo de seus movimentos antes do dia 15, quando foi visto pela última vez em casa.
O que fica é a imagem de um homem que construiu a carreira no mesmo chão onde morreu, dentro do mesmo universo visual que a Netflix vende para o mundo como romance e aconchego. Virgin River já foi renovada para a oitava temporada. As câmeras vão voltar para Lions Bay, para Squamish, para Bowen Island, para os mesmos rios e montanhas que aparecem toda vez que Mel Monroe atravessa aquela paisagem de cartão postal. Stewart McLean não vai estar lá. Mas esteve. Por dez anos, esteve.