Alejandro Claveaux revelou que visitou saunas gays, boates e cinemas adultos para construir seu personagem no filme Ruas da Glória. No longa, recém-estreado nos cinemas, o ator interpreta Adriano, um garoto de programa que circula por esse universo noturno e marginalizado.
Eu já estava cruzando a ponte rumo a Niterói, com as meninas ainda mandando áudio no grupo e a costureira me esperando como se domingo fosse dia útil, quando li que Alejandro Claveaux foi para sauna gay e cinema adulto em nome da arte. Acordei de vez. Porque tem ator que diz “estudei o personagem” e leu duas páginas. Alejandro foi lá, olhou, sentiu o ambiente e voltou com material de verdade
O ator contou que não conhecia esses espaços antes da preparação. A visita surgiu como proposta da direção e da produção, justamente para que ele entendesse melhor o ambiente em que o personagem vivia e trabalhava.
“Eu não conhecia esses locais. Foi uma proposta da direção e da produção. Ficamos um tempo ali observando e sentindo, porque o meu personagem vivia nesse ambiente, ele trabalhava nesses lugares. E eu não podia começar um filme desses sem conhecer e sem ter essa vivência”, explicou.

Alejandro disse que a parte da preparação é uma das que mais gosta em seu ofício. “A parte de que eu mais gosto no meu trabalho é a preparação, entender a cabeça do meu personagem e o universo que o rodeia”, afirmou.
O ator também falou sobre o preconceito em torno de saunas, boates e cinemas adultos. Segundo ele, a percepção que tinha mudou depois da experiência. “Aqui no Brasil, esses locais são muito colocados à margem, mas a impressão que eu tinha mudou completamente. É um lugar onde as pessoas vão tomar um drink, se divertir, ver um show, ouvir música… E aí tinham os ambientes de sexo. Mas era um lugar onde as pessoas iam após o trabalho para relaxar, e não apenas para transar”, disse.

Alejandro admitiu, no entanto, que alguns espaços pesaram mais. “Os cinemas, por exemplo, eram mais estranhos. Eu achei um pouco mais pesado, mas tudo bem também, faz parte”, comentou.
Ruas da Glória também traz cena de nu frontal do ator. Para Alejandro, o incômodo que esse tipo de imagem ainda causa diz mais sobre a forma como o audiovisual sempre tratou corpos masculinos e femininos de maneira desigual.
“Isso choca porque o nosso audiovisual sempre explorou a nudez feminina sem nenhum pudor, e a nudez masculina foi protegida por algum motivo. Sempre foi assim. Então acho que é também um convite para a gente mudar um pouco isso. A história precisava desse momento. Nem é um momento muito longo, mas ajudava a contar a história”, afirmou.
O ator, que namora o jornalista Rafael Barcellos, também fala abertamente sobre sexualidade e homofobia. Ele relembrou que sofreu bullying na infância por ser uma criança sensível, com voz aguda e traços considerados mais delicados.
No fim, a história é menos sobre choque e mais sobre compromisso. Alejandro poderia ter feito o personagem sentado no conforto da imaginação, mas preferiu entrar no ambiente, ouvir o silêncio do lugar, observar quem passa e entender de onde vem aquele homem. Domingo, ponte, costureira me esperando e eu aqui pensando: quando a preparação é séria, até sauna vira laboratório de cinema.