Eu estava na minha casa no Cosme Velho, toalha enrolada no cabelo e a chave do carro na mão pra descer pra Niterói , quando o telefone tocou e uma amiga influenciadora quase estourou meu tímpano do outro lado da linha. Joguei a chave na mesa e sentei na hora, porque babado que mistura barriga, Tailândia e duas trans famosas se estapeando na internet não deixa essa colunista treinar coisa nenhuma.
O estouro é o seguinte, meus amores. A influenciadora trans Apolline, mais de dois milhões de seguidores e afilhada digital de Carlinhos Maia, saiu anunciando que vai fazer transplante de útero e ainda implantar ovários pra engravidar, tudo na Tailândia, com a naturalidade de quem encomenda bolsa nova pela internet. Ela despejou o plano em vídeos postados pelo amigo Rico Melquíades, (que não para de falar bobagens na internet com o objetivo de valorizar sua candidatura ridícula pelo PSDB) , jurando que pesquisa muito e quer gestar até o fim do ano. E olha o detalhe que ninguém pode esquecer, a moça já é mãe de um menino de dois aninhos que nasceu por barriga de aluguel.

Foi aí que a Wanessa Wolf, carioca, trans como ela e dona de uma das línguas mais afiadas da internet, pegou o telefone e falou o que a medicina inteira sabe e ninguém tinha coragem de dizer pra fã nenhuma. Transplante de útero existe e faz nascer bebê de verdade desde dois mil e quatorze, sim, só que em mulher cis, e até hoje, em parte nenhuma do planeta, não houve um único caso documentado de mulher trans que tenha gestado e parido depois da cirurgia. A parte de implantar ovário pra produzir óvulo então é puro chute, porque isso não está no catálogo de clínica nenhuma em Bangkok. A Wanessa chamou de perda de tempo e torceu pra que as outras meninas trans não caiam nessa, e por mais que doa no meu coraçãozinho de fofoqueira, a mulher estava com a razão na mão e a literatura médica debaixo do braço.

E nem original a novela é, viu. Jessica Alves prometeu ser a primeira trans do mundo a fazer o tal transplante lá em dois mil e vinte e um, Maya Massafera também flertou com a ideia, e até agora ninguém empurrou carrinho de bebê fruto de útero transplantado. Apolline, claro, não engoliu a alfinetada e voltou cuspindo marimbondo, dizendo que a Wanessa está sem conteúdo, que o nome Apolline é forte demais pra caber na boca dela, mandando o clássico se quer filho que adote e lembrando, toda empinada, que ela mesma já tem o seu. Nas redes a coisa virou arena romana, com print de unfollow circulando, gente perguntando se já existiu gestação assim em algum canto do mundo e a plateia do quero ver na hora de parir rindo solta nos comentários.
Agora cola o ouvido aqui que a tia vai ser franca. Sonho de ser mãe é sagrado, ser mãe trans é lindo, e a Apolline já cria com amor o filho que tem, então esse lado eu nem encosto. O veneno é vender pra dois milhões de pessoas, como projeto carimbado pro fim do ano, uma cirurgia que jamais fez uma mulher trans parir em lugar nenhum do mundo, e ainda enfeitar com implante de ovário que não existe em prateleira de clínica alguma. A Wanessa Wolf foi grossa, mas foi grossa falando verdade, e verdade dói mais que ponto de cesariana. Anuncia menos e apura mais, querida, porque a tia aqui já ligou pra meia Tailândia e ninguém atendeu com a data do parto.