Eu tinha acabado de pendurar a toalha na academia no Leblon quando o telefone tocou e uma advogada amiga minha, dessas que leem decisão judicial igual eu leio legenda de fofoca, soltou rindo: “Kátia, a Ana Paula Renault entrou na Justiça pra calar o Adrilles e saiu de lá levando aula de como funciona reality show.” Sentei na escada de novo, porque essa eu precisava ouvir até o fim.
Pois é. A Justiça de São Paulo negou o pedido de tutela de urgência que a ex-BBB Ana Paula Renault moveu contra o vereador e comentarista Adrilles Jorge. Ela queria duas coisas, a remoção imediata dos vídeos que ele publicou no X e no Instagram e uma indenização de vinte mil reais por danos morais. A juíza olhou pro pedido e disse que ali não estavam os requisitos pra uma liminar, porque o assunto envolve manifestação contra pessoa pública dentro de debate de interesse coletivo.

E aqui mora a ironia que me fez rir sozinha. A magistrada anotou que a participação voluntária da Ana Paula num reality nacional aumenta a exposição dela ao escrutínio público e alarga o espaço pra crítica e avaliação da sociedade. Traduzindo do juridiquês pro idioma da minha varanda, a mulher construiu fama em cima de barraco e holofote, e foi exatamente esse currículo que o Judiciário usou pra dizer que ela vai ter que engolir crítica dura, mesmo a desconfortável.
Pra quem chegou agora, a treta vem de longe. A ação nasceu enquanto a Ana Paula ainda estava confinada no BBB 26, tocada pela equipe dela lá fora, e reúne uma penca de vídeos em que o vereador chamou a jornalista de “projeto monstruoso” e “personagem nefasta”, além de dizer que quem gosta dela seria mau-caráter ou burro. A defesa dela classificou tudo como injúria e linchamento virtual. O Adrilles, que já coleciona polêmica desde a saída da Jovem Pan em 2022 e o número da peruca na Câmara, vestiu a fantasia de mártir da liberdade de expressão e está adorando o papel.
Agora vem o detalhe que ninguém colocou na manchete e que pra mim é o filé. A juíza reparou que a procuração apresentada pela autora foi assinada antes mesmo de os tais conteúdos serem publicados, o que, segundo a decisão, pede esclarecimento e prova, e não combina com a pressa de uma liminar. Pra completar o estrago, como o pedido de remoção caiu, os vídeos do Adrilles seguem no ar, lindos e disponíveis, o oposto do que ela foi buscar.

Fica pra mim a impressão de que a Ana Paula entrou nessa novela achando que ia roteirizar o capítulo e descobriu, da pior forma, que plateia de reality enxerga tudo, inclusive papel datado fora de hora. A próxima cena ainda vai ao mérito, com prova e contraditório, então guardem a pipoca. Eu, da minha poltrona em Cosme Velho, já anotei a data da audiência na agenda.
O que sustenta o ângulo: a negativa da liminar, a tese da exposição por ser figura de reality e a fala do advogado vêm da decisão revelada com exclusividade pela coluna Fábia Oliveira, no Metrópoles. O detalhe de ouro, a procuração assinada antes da publicação dos conteúdos, mais o histórico da treta com os termos usados por ele e o pedido de R$ 20 mil feito ainda no confinamento, estão apurados em O Tempo e Diário do Litoral, a partir da mesma origem.