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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Agro regenerativo seduz investidor mas trava no crédito

Meio mundo desembarcou em Piracicaba para jurar amor ao solo, mas a pergunta que ninguém respondeu foi quem vai bancar esse romance.

Kátia Flávia

24/06/2026 14h14

O Fórum de Agricultura Regenerativa 2026 reuniu especialistas de mais de 20 países em Piracicaba para discutir o futuro do agro sustentável.

O Fórum de Agricultura Regenerativa 2026 reuniu especialistas de mais de 20 países em Piracicaba para discutir o futuro do agro sustentável.

Meus amores, um contato meu que estava na plateia me ligou ainda no coffee break e despejou tudo. Piracicaba, a pacata Piracicaba do interior paulista, virou tapete vermelho do agro chique nesta terça-feira, dia 23. O Fórum de Agricultura Regenerativa 2026 estreou no Brasil com 350 convidados sentadinhos na plateia e mais de 3 mil acompanhando de casa, gente de mais de 20 países disputando microfone para falar de solo, biodiversidade e, claro, dinheiro. Porque no fim sempre cai no dinheiro, vocês me conhecem.

A primeira a soltar a frase da noite foi Analí Bustos, diretora estratégica para a América Latina na Naia Trust, dessas executivas que entram na sala e já reorganizam a mobília. Cravou que não existe agro sem ecologia e ainda passou sermão na própria turma, porque descobriu que estudante de agronomia mundo afora quase não estuda ecologia e ficou de queixo caído, comparando esse ensino picado a separar a cabeça do resto do corpo. Como toda diva que entende de bastidor, foi direto ao que interessa ao meu colunismo, cobrando políticas públicas, incentivos e crédito na mesa para o produtor topar a transição. Tradução livre: lindo o discurso, mas cadê o cheque.

O grande nome da festa atendeu por Dr. Geoffrey Hawtin, e esse chegou com currículo de estrela premiada. Levou o World Food Prize 2024, o tal Nobel da Agricultura, já comandou centros do CGIAR e foi CEO do Crop Trust, que é basicamente o cofre suíço das sementes do planeta. Com a pose de quem já viu de tudo, elogiou a riqueza do debate e emendou uma alfinetada elegante, dizendo que ouviu muito sobre a necessidade de políticas públicas e quase nada sobre o que essas políticas deveriam de fato ser. E mandou o recado que faz o Brasil inflar o peito e suar frio ao mesmo tempo, lembrando que somos um dos países agrícolas mais importantes do mundo, que vamos ficar ainda mais importantes e que, com o clima virando do avesso, talvez seja hora de mexer na pauta de exportação, destinando menos para a pecuária intensiva e mais para a comida que chega direto no prato das pessoas.

Aí entrou o vilão dessa novela, e ele tem número de CPF. O Dr. Ulrich Kuhlmann, cientista-chefe do CABI, jogou na roda o dado que gelou o salão, porque o uso de agrotóxico no mundo subiu 70% entre 2000 e 2023, segundo a FAO, e o homem não escondeu a preocupação. Para ele a agricultura regenerativa é a saída concreta, mas tropeça num detalhe nada romântico, já que o produtor não vê comprovação de retorno, principalmente financeiro, e sem retorno ninguém troca de namorado. A aposta dele foi nas consultorias agronômicas online, a tal ponte entre o produtor e o conhecimento que encurta distância e acelera a adoção que todo mundo prega e pouca gente pratica.

O Fórum de Agricultura Regenerativa 2026 reuniu especialistas de mais de 20 países em Piracicaba para discutir o futuro do agro sustentável.
O Fórum de Agricultura Regenerativa 2026 reuniu especialistas de mais de 20 países em Piracicaba para discutir o futuro do agro sustentável.

Fechando o time das damas, Isabela Pascoal Becker, diretora de Sustentabilidade da Daterra, aquele império do café gourmet que vocês adoram postar no story, pediu mudança de paradigma e disse o óbvio que muita gente finge não enxergar, que a agricultura é parte da natureza e que tratá-la como vilã separada do resto só atrapalha quem precisa decidir de cabeça fria.

E quem bancou esse baile todo? Aí está o filé do meu caderninho. A produção saiu do Global Landscapes Forum, da Sustainable Agriculture Network, do Imaflora e do CABI BioProtection Portal, com transmissão em quatro idiomas para ninguém reclamar de legenda. O patrocínio veio do bolso do Fundo Vale, o cafezinho com pedigree foi cortesia do Café Orfeu e a produção ficou por conta do Pecege. Resumo da ópera: o agro descobriu a ecologia, a Faria Lima descobriu o agro verde e agora todo mundo namora de mãozinha dada esperando alguém ter coragem de pagar a primeira rodada de crédito. Eu, de camarote, anotando quem assina o cheque primeiro.

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