Saí do cabeleireiro aqui em Bari com a raiz retocada e a dignidade restaurada, e mal cheguei no apartamento meu celular já estava a mil com mensagem da Gustava, que cobre moda há quinze anos e estava no Rio cobrindo o Fashion Week: “Kátia, você precisava ter visto ao vivo.” Precisava, sim. Mas estou no Adriático, então vou cobrir daqui com o mesmo ardor de sempre.
O que rolou: a adidas Originals apresentou, na passarela do Rio Fashion Week do dia 17, um desfile inteiro construído em torno do Megaride, aquele tênis icônico dos anos 2000 com entressola de túnel aberto que tomou conta das periferias e dos campos de várzea brasileiros. A direção criativa foi de Rafaela Pinah, carioca de Realengo e fundadora do Coolhunter Favela, que transformou o desfile numa pesquisa etnográfica com passarela. As artistas Tasha e Tracie, parceiras históricas da marca, se apresentaram ao vivo.

No digital, o desfile virou assunto instantâneo. O nome de Rafaela Pinah foi o mais comentado da noite no segmento de moda, e as imagens das camisas da Copa do Mundo FIFA 2026 assinadas pela adidas Originals rodaram todos os perfis de streetwear e futebol ao mesmo tempo. A coleção adidas com o Time Brasil, fruto da parceria com o Comitê Olímpico Brasileiro, deu ao desfile uma camada institucional que raramente aparece numa passarela de fashion week.
Minha leitura, com distância geográfica e proximidade cultural: o que a Rafaela Pinah fez foi simples e genial. Ela não colocou a periferia na moda, ela devolveu pra periferia o que a moda já havia pegado emprestado sem dar crédito. O Megaride nunca saiu das ruas brasileiras, e agora a adidas tem a inteligência de reconhecer isso com direção criativa de quem conhece o território de dentro. Copa do Mundo na passarela, futebol como linguagem estética, e uma mulher de Realengo assinando tudo.