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Dançarino da Ceilândia cria companhia e expande os sonhos

Rafael Vieira conta que ao assistir a filmes antigos como Flashdance e aos vídeos de Michael Jackson, sua maior inspiração, os olhos brilhavam

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Luiza Carvalho
Jornal de Brasília / Agência UniCEUB

A dança urbana é uma paixão do cearense Rafael Vieira, 36 anos, radicado na Ceilândia (chegou com a família aos oito anos de idade), e profissional de dança desde o ano 2004. Ele nasceu em Fortaleza e conta que, desde pequeno, é fascinado pelo ritmo. Lembra também que, ao assistir a filmes antigos como Flashdance e aos vídeos de Michael Jackson, sua maior inspiração, os olhos brilhavam. Dos primeiros passos até ter a própria companhia, ele viu amigos entrarem para o crime e serem mortos. Hoje, a “Have dreams” estimula jovens a terem outra perspectiva.

Na escola onde estudava na Ceilândia, soube, através de um colega de classe, de um grupo de dança amador chamado “Egípcius” e começou a participar. “A partir desse momento, eu nunca mais parei e me envolvi com dança de corpo e alma”.

Ele conta que, apesar do grupo não ser profissional, os dançarinos eram muito bons e faziam sucesso nas competições em discotecas naquela época. “A gente pegava coreografias e ficava ensaiando e dançando nas boates”. De 1998 a 2003, ele fez parte do grupo. Um ano depois, fez seu primeiro curso profissionalizante, em Joinville, com Edson Guiu, dançarino brasileiro que viajou o mundo para dar aulas de hip hop em diversos eventos internacionais.

Rafael realizou cursos intermediários e avançados nacionais e internacionais até estudos de composição coreográfica dentro do contemporâneo. Em 2003, criou um grupo de dança na igreja que frequentava, chamado “Over bless”, mas liderando juntamente com um amigo. Em 2010, Rafael montou o próprio grupo. “A intenção era sair pelo mundo”. Ele e o restante do time de dançarinos queriam mesmo ser profissionais, competir e ter o próprio espaço.

“A gente conseguiu montar, mas com o esforço de muitas pessoas que passaram pelo grupo, que ajudou de diversas formas”. Ele explica que o plano inicial sempre foi conquistar o espaço próprio, dançar com artistas, desenvolver novos profissionais. A intenção era construir uma escola de fato.

Confira entrevista

Como chegou ao nome da companhia “Have dreams” (Tenha sonhos)?

A ideia surgiu a partir de um filme que me identifiquei muito, chamado “Escritores da Liberdade”. É uma história de uma professora que tem como objetivo transformar a vida dos alunos de uma escola. Motivada por seus ideais, aceita lecionar para a então titulada “turma problema”, com a tarefa de ensinar adolescentes considerados rebeldes, intolerantes e desacreditados. Por meio de novos métodos de ensino, a professora conseguiu tocar o coração deles. Eu me identifiquei muito com o filme devido ao meu histórico, das situações que presenciei morando na Ceilândia.

Eu lembro que, quando eu assisti a esse filme, eu estava muito abalado, mas a história conseguiu me motivar. A música, tema do filme, mencionava a famosa frase “I have a dream” de Martin Luther King. Então pensei que eu tinha que criar algo relacionado a sonhos porque era como se as pessoas estivessem tentando abafar os meus. Em uma reunião com alguns amigos, contei sobre esse filme e chegamos a esse nome.

Como abriu a companhia de dança?

Eu juntei todas as economias que eu tinha e minha esposa entrou como sócia. Mas, na verdade, o grupo todo ajudou. Havia duas meninas, Adrielle e Amanda, por exemplo, estudantes de arquitetura, que realizaram o desenho do projeto.

A escola foi inaugurada em outubro de 2019 e foi um investimento alto. Cheguei a fazer empréstimo também. Infelizmente, a pandemia dificultou a situação, mas espero voltar o quanto antes, continuar a trabalhar e não deixar esse sonho morrer.

O que me motiva é a emoção que eu sinto em cada situação, desde a preparação de uma competição, espetáculo até ver o desenvolvimento, satisfação e felicidade das outras pessoas.

Como divulga seu trabalho?

Eu divulgo meu trabalho nas redes sociais. Mas eu acredito, na verdade, que foi graças ao meu trabalho árduo ao longo de todos esses anos. Sempre busquei trabalhar com competência, responsabilidade e muita seriedade. Prezo muito por isso.

O que mudou na sua rotina desde o começo da pandemia?

A pandemia tem sido um turbilhão de sentimentos muito ruim porque bloqueou a gente. No primeiro mês de confinamento, consegui me organizar, me adaptar. Mas, quando deu o segundo mês, já fiquei mais aflito — ficava nos altos e baixos. Mesmo tentando levar motivação pro grupo, mantendo as aulas online, gravando vídeo, está sendo muito difícil. Não é a mesma coisa, não é a mesma energia de estar perto, ouvir a batida, o som, o calor, os gritos…

O que a dança significa para você?

A dança significa toda a minha vida. Eu vim de um contexto miserável, de uma família humilde e a dança me ajudou muito. O crime e a violência eram uma realidade muito presente no ambiente em que vivi na Ceilândia e tive a infelicidade de ir em velórios de amigos meus que se envolveram com o crime. Então, quando surgiu a primeira oportunidade para eu crescer e melhorar de vida, eu abracei.

Se eu não tivesse começado a dançar, talvez eu não teria nem conhecido outras cidades ou ido para os Estados Unidos, que era um sonho. Então, a dança foi e é importante pra mim. Incrivelmente.


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