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Cidades

Um sonho e um livro nas mãos

Por meio da Bienal da Quebrada, Mateus Santana busca democratizar o acesso à literatura

Larissa Galli Malatrasi

Publicado

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Aos 28 anos, o publicitário e escritor brasiliense Mateus Santana  carrega um permanente incômodo: o de se ver parte de um país socialmente dividido, desigual e — quase sempre — injusto. Nascido e criado em Samambaia, Mateus   — o primeiro da família a concluir o ensino superior — nutre  um forte   (e incomum)  senso de coletividade. E acredita que é possível mudar o mundo, sim: um livro de cada vez.
 
“O livro também é necessidade básica. O conhecimento formal, da escola, da academia, já é dificultado para nós. Se não for a gente, que vem desses territórios [a estimular a leitura], dificilmente outras pessoas o farão”, afirma.

Foi com essa certeza que Mateus criou o projeto Bienal da Quebrada, fundado em julho do ano passado para ajudar a  democratizar o acesso das comunidades periféricas à literatura. Uma das ações — que acontece desde agosto — é a arrecadação e a entrega de livros nesses territórios.

Em dez meses, com a ajuda de 60 voluntários espalhados pelo país, o projeto já distribuiu mais de 4 mil livros — principalmente no DF, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Como não poderia deixar de ser, porém, a Bienal da Quebrada também foi afetada pela pandemia do novo coronavírus. A meta de Mateus para o primeiro semestre de 2020 era construir três bibliotecas: duas no Rio e uma no DF. Em São Paulo, uma ação em parceria com o Museu de Futebol  precisou ser cancelada.

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“Suspendemos o projeto de arrecadação por causa das recomendações de isolamento social. Não dá para expor os voluntários ao risco de contaminação. Nosso trabalho é quase 100% na rua”, diz Mateus.

“Você aceita um livro?”

Incansável, o publicitário não se deixou abater: decidiu unir esforços com projetos que estão distribuindo cestas básicas nas periferias do DF para disseminar os livros já arrecadados.  
“Você aceita um livro?”, pergunta Mateus, como gentil convite, a cada morador que recebe a cesta. A receptividade tem sido gratificante.

“Quase ninguém nega; a reação é muito legal, porque a gente entrega o livro e a pessoa já pergunta se temos outro que ela possa escolher”, conta.

Por enquanto, nesta parceria, Mateus distribuiu 30 livros no Recanto das Emas. Outras distribuições estão agendadas no Sol Nascente e na Cidade Estrutural.

“Nesse momento de pandemia, doar livros é uma forma de divertir, distrair, ajudar e amenizar esse momento caótico que estamos vivendo. É uma nova ferramenta de descoberta para esses jovens e adultos que recebem os livros”, diz.

“A minha vida mudou totalmente”

Por causa da leitura, Mateus é agora também autor de um livro: O amor ao próximo é legalizado, pode usar sem medo.

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“A minha vida mudou completamente depois que eu me interessei pela leitura. Comecei a ler muito tarde, porque o ensino público ainda é muito defasado e a escola apresenta para nós a literatura de uma forma muito agressiva, em uma linguagem que a gente não entende. Era algo extremamente chato. Mas foi a partir da leitura que passei a me interessar pela escrita e tive vontade de fazer faculdade. A leitura e o conhecimento têm um poder gigantesco: são a maior arma que temos para mudar uma estrutura — e é por isso que nos são tão dificultados.”

Mateus —  “com o peito cheio de alegria e esperança” — segue acreditando que as coisas podem ser diferentes. Quer levar os eventos literários, em geral realizados longe e à revelia da periferia, às comunidades — e, é claro, as comunidades aos grandes acontecimentos literários.

“A proposta é levar para as quebradas eventos literários que geralmente acontecem nos grandes centros — e, mais que isso, levar evento para as quebradas com a nossa linguagem, a nossa visão. Porque esses grandes eventos reproduzem a lógica do mercado literário, que ainda é racista, e dificulta o nosso acesso.”

Ele não vai desistir fácil. “Que em 2020 a gente siga fazendo bem mais, caminhando bem mais e que eu siga acreditando, que eu siga querendo deixar algo bom antes de morrer, se não tiver morrido”, disse — com crua candura — em um post do Instagram no início desse fatídico ano.

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Como doar

A Bienal da Quebrada recebe as doações a partir de contatos nas redes sociais (@bienaldaquebrada). A pessoa que quer repassar um livro deve informar o estado e a cidade em que se encontra, para que Mateus verifique se existem voluntários no local. Nesse caso, o voluntário vai até o doador e armazena os livros na própria casa ou em depósitos específicos do projeto, até o dia da distribuição.

O projeto também recebe apoio financeiro por meio de uma vaquinha virtual no site benfeitoria.com. A seleção de voluntários acontece periodicamente.

Para viabilizar a distribuição em outros estados nesse momento de distanciamento social, Mateus repassou 1.300 livros para duas iniciativas do Rio de Janeiro. A ONG Voz das Comunidades receberá mil e o coletivo Favela Vertical, 300.


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