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“O PCC é como uma empresa”

Ao Jornal de Brasília, o diretor da Cecor conta que o PCC chegou ao Planalto Central em 2011 e é alvo de mandados desde 2014. Com a chegada do principal líder, Marcola, em março de 2019, o grupo buscou “apenas” se estabelecer na capital da República

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De acordo com o delegado, diferentemente do que chegou a ser noticiado, “quem desbaratou o plano foi o Depen, que monitora os presídios”. Ele esclarece também sobre a ameaça a uma juíza candanga. “Ela não chegou a receber o bilhete, que não saiu da Papuda. A interceptação foi efetuada pelos agentes da Subsecretaria do Sistema Penitenciário do DF (Sesipe/DF). Ao Jornal de Brasília, o diretor da Cecor conta que o PCC chegou ao Planalto Central em 2011 e é alvo de mandados desde 2014. Com a chegada do principal líder, Marcola, em março de 2019, o grupo buscou “apenas” se estabelecer na capital da República.

Desde quando o PCC está instalado em Brasília?

O PCC começou o movimento de expansão nacional no início dos anos 2000, por volta de 2005, 2006. É um movimento estratégico de ocupar outros estados além de São Paulo. E, de 2011 para cá, tentou se instalar no Distrito Federal. Com isso, a PCDF passou a fazer esse monitoramento da facção; desde 2014 vem realizando operações e já prendeu mais de 300 integrantes do PCC. Justamente para evitar a instalação no DF. O que a gente notou com a vinda da cúpula para cá? Uma tentativa de se fortalecer. A gente notou a instalação de uma casa de apoio, que antes não tinha, e a participação desses advogados, que apesar de não serem cadastrados, atuam de forma a apoiar a facção, o que extrapola o limite da advocacia. Eles procuraram os imóveis a partir de instruções do PCC, e os advogados alugaram.

São os “gravatas” [termo usado para designar advogados]?

Isso. Inclusive é algo que não havia aqui no DF. O PCC é como se fosse uma empresa, e abriu aqui [a partir da vindo do Marcola] um departamento jurídico, a “Sintonia dos Gravatas”, como eles chamam.

Como prevenir a atuação criminosa dos advogados?

A forma de prevenção é a mesma da criminalidade em geral. O advogado que extrapola e colabora com a conduta criminosa passa a ser criminoso. Através de investigações detalhadas, que a Polícia Civil tem a expertise nesse tipo de operação, a gente acaba chegando nesses advogados. Há alguns obstáculos que serão ultrapassados com uma investigação bem feita. Com uma investigação mal feita, isso vai ser interrompido durante o processo.

O governador chegou a alertar que a vinda da cúpula para cá seria um perigo — e desde 2015 a “exportação” do crime organizado gerou colapsos na segurança pública em alguns estados. A retirada das lideranças da facção de seu local de origem é a solução?

A parte política e a parte de gestão de segurança pública é mais para cima, é com o diretor da polícia, secretário de segurança e Ministério da Justiça. E nessa briga eu não posso entrar. O governador quer tirar e o Ministério da Justiça é Segurança Pública (MJSP) diz que é melhor que fique aqui e em outros locais. O que a gente pode comentar é o caso concreto daqui. Desde o início, como o governador falou, não era bem visto, porque poderia trazer um aumento da criminalidade e a estabilização da facção aqui. A gente não tem visto isso, apenas uma iniciativa da facção nesse sentido.

Há uma estimativa de quantos membros há no DF? Há uma hierarquia na célula candanga?

Normalmente os faccionados que têm voz de comando com relação ao DF estão fora. Eles estão em presídios do interior de São Paulo ou do Paraná. Hoje, a gente tem uma estimativa de pouco mais de 300 faccionados presos. Tem alguns na rua, mas não dá para falar, porque há outras operações engatilhadas.

Eles tinham uma área de atuação específica, alguma região mais visada?

Eles são mais fortes em Taguatinga, Ceilândia e Recanto das Emas. Até porque Taguatinga e Ceilândia são as áreas mais atingidas pelo tráfico. Uma prova de que eles não conseguiram se instalar em Brasília: a arrecadação não vem só do tráfico. Eles têm uma mensalidade [a cebola] em todo o Brasil, mas, no DF, definiram que seria isento, justamente para incentivar o ingresso de criminosos. E já tem mais de três anos que a mensalidade não é cobrada.

Como é a colaboração com a Polícia Civil de São Paulo e com a Polícia Federal?

A gente conta com uma colaboração intensa do Depen e da Sesipe [Subsecretaria do Sistema Penitenciário, vinculada à Secretaria de Segurança Pública do DF]. Esses dois órgãos fazem um trabalho competente de monitoramento das facções dentro dos presídios. Com relação às polícias, sempre há essa troca de informação. Amanhã ou depois de amanhã nós continuaremos a deflagrar a operação e cumprir três mandados em São Paulo, no Paraná e em Minas Gerais. Há troca de informações com a Polícia Federal e com as polícias de outros estados.

Eles tentaram se estabelecer no Lago Sul e no Jardim Botânico, mas acabaram em Taguatinga. Alguma razão específica?

A gente não sabe o motivo por que acabaram alugando esse imóvel em Taguatinga. O que a gente acredita é que seja porque os advogados que os auxiliaram têm escritório em Taguatinga. Eles sondaram, visitaram imóveis no Lago Sul e no Lago Norte — principalmente pela proximidade do presídio.

Havia uma ameaça em curso a uma membro do Judiciário do Distrito Federal. Isso é uma certa audácia da facção?

Eu acredito que mostra audácia e, normalmente, isso vem em resposta a um reforço na segurança, a um arrocho que eles tomam no presídio. Em São Paulo, quando o sistema de segurança aperta a fiscalização dos presídios, eles reagem assim. Isso nos leva a crer que essa ameaça, que não chegou a se concretizar, pois o bilhete foi interceptado ainda dentro da Papuda, pelo Sesipe, seja nessa linha.

Desde 2017, os crimes violentos apresentam queda. Alguns especialistas atribuem isso a uma estagnação dos poderes paralelos, que então diminuíram o nível de violência. Onde a Operação Guardiã 61 se encaixa nisso?

Eu acredito que as polícias dos estados onde o PCC atua, e mesmo os sistemas prisionais, com o tempo, evoluem, se desenvolvem e aprendem a lidar com essas facções. Também creio que tenha relação com a construção dos novos presídios federais, do controle rígido que é feito. Não tenho dúvida de que esse isolamento dos líderes contribui para a estagnação do crescimento dessas facções. O trabalho é muito bem feito, e isso dificulta a comunicação entre a cúpula e o operacional. Quanto à expansão, eu não acredito, porque eles continuam com esse movimento, e adotaram a política de expansão para América do Sul e outros países. E também há a briga por território. O PCC domina boa parte do Brasil, mas ainda há o Comando Vermelho (CV) em alguns estados.

A presença do PCC em outros UFs adubou terrenos para o surgimento de novas facções. Há risco de algo parecido no DF?

Sim. Há essa preocupação, mas o trabalho da Polícia Civil, da Difac, também vai nesse sentido. A gente não monitora só o PCC.


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