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Modelo trans estreia como recordista

O brasiliense Sam Porto admite um certo ar “interiorano na capital da República”, e pede mais informações para o público LGBTQ+ no quadradinho

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Olavo David Neto
redacao@grupojbr.com

Há dois anos, era apenas tatuador. Nesta semana, porém, tornou-se também o principal modelo da maior semana de moda do país: a São Paulo Fashion Week.

Questionador e de língua afiada, o brasiliense Sam Porto assumiu o posto de primeiro homem transgênero a desfilar no evento. E a estreia foi arrebatadora: além de ser o modelo que mais desfilou na passarela do SPFW 2019, trouxe protestos e uma mensagem pintada no peito, logo abaixo das cicatrizes da mastectomia realizada no ano passado: “Respeito Trans”.

A mensagem veio no desfile da grife Cavalera e arrebatou aplausos entusiasmados do público. O candango admite um certo ar “interiorano na capital da República”, e pede mais informações para o público LGBTQ+ no quadradinho.

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“A política é muito forte [em Brasília]; acredito que, se a gente aceita o que eles querem, as coisas nunca vão melhorar”, comenta em entrevista exclusiva ao Jornal de Brasília. E provoca até o Planalto:

“Gostaria de mandar um beijo ao “Bossonaro”. É assim que se escreve? Nem sei. Não o conheço!”, brinca.

Qual a importância de ter um homem trans na principal semana de moda de um dos países que mais matam LGBTQ+ do mundo?

Tenho consciência de que é uma responsabilidade muito grande. A importância do corpo trans masculino no SPFW, se define total em representatividade e inclusão, nós existimos e também somos consumidores. Temos que ser respeitados e precisamos ser representados com um corpo que é real e tem a vivência de fato.

Você representa uma parcela historicamente marginalizada e excluída do convívio familiar e do mercado de trabalho. Seus desfiles na SPFW abrem as portas ao grupo que você representa?

O que mais me incentivou a me jogar nisso tudo foi a falta de referências masculinas nesse meio. Também ligando à minha pretensão de tentar abrir os olhos do mercado de trabalho, mostrando que somos capazes de exercer com excelência assim como as pessoas cis. Buscando também enfatizar e levantar voz sobre a questão da prostituição, que de fato infelizmente ocorre bastante com grande parte desse público.

A moda tem papel desafiador. Enxerga sua entrada nesse mundo como uma espécie de “tapa na cara” e um grito por respeito do setor?

Sempre enxerguei dessa forma. Minha decisão de engatar e finalmente aceitar convites de agências [Sam é agenciado pela Rock Mgt] foi por visar a carência e necessidade de inclusão de pessoas como eu no meio da moda. Eu me sinto imensamente feliz e grato à Cavalera por me dar a liberdade de representar de fato em forma de protesto em meu próprio corpo.

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Seu desfile pela Cavalera trouxe mensagens (inclusive no seu tórax) por respeito aos transexuais. É esse o papel da moda no combate aos preconceitos?

Cavalera me deu total liberdade e espaço para me expressar da forma como eu quisesse na passarela. Mas não só a Cavalera, Korshi, João Pimenta, Another Place e Handread também me deram espaço em relação a exposição das cicatrizes. Ellus, modem e Lucas Leão não ficam de fora, pois existiu a minha inclusão nas passarelas junto ao respeito. O papel não é só esse protesto que houve em Cavalera, essa é uma das formas que ajudam. A inclusão da minha presença no SPFW já faz com que seja um grande passo, mas acredito que ainda há muitas formas de se combater o preconceito!


Brasília ainda tem um lado muito interiorano e conservador. Como lidava com essa dicotomia enquanto ainda estava aqui?

Brasília precisa de um choque. Precisamos de mais materiais acessíveis e estampados nas ruas; acho que isso ajudaria bastante em relação ao respeito, não só aos trans mas a toda a comunidade [LGBTQ+]. Nunca busquei me esconder; sempre fui de me impor. Principalmente em Brasília, onde a política é muito forte; acredito que, se a gente aceita o que eles querem, que é nos apagar totalmente, as coisas nunca vão melhorar. Nós estamos vivos e estamos cada vez mais conquistando o nosso espaço. Inclusive gostaria de mandar um beijo ao “Bossonaro”. É assim que se escreve? Nem sei. não o conheço!

A mastectomia que você realizou foi um passo a mais para a carreira de modelo?

Fiz a minha cirurgia com o Erick Carpaneda, cirurgião plástico que inclusive é de Brasília, especialista e referência nesse tipo de procedimento. Afirmo que isso foi o que me encorajou a me jogar no mundo da moda, me sentindo totalmente confortável em questão da exposição corporal. Amo as minhas cicatrizes e tenho orgulho em mostrá-las.

Como todo pioneiro, você abriu portas para diversas pessoas na mesma situação. O que tem a dizer para meninos e meninas que também sonham em chegar onde você está hoje?

Não se calem, não deixem que ninguém passe por cima ou que tente nos camuflar de alguma forma; nós existimos e precisamos primeiramente nos unir para conquistar o nosso espaço, precisamos de voz e representatividade em todos os meios. Força, continuem. Hoje eu estou aqui e vou continuar, mas ainda faltam muitas referências, principalmente de pessoas negras, travestis etc. Não desistam!

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