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Desemprego atinge mais mulheres e jovens no DF

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Raphaella Sconetto
Lígia Vieira
redacao@grupojbr.com

No Distrito Federal, 308 mil pessoas não têm um motivo para acordar cedo todos os dias. Elas amargam a espera por um emprego e ócio não é mais bem-vindo. Apesar de o número ter caído em relação a 2017, quando a capital registrou mais de 338 mil pessoas sem trabalho, o novo governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), precisará se esforçar para garantir o direito social ao trabalho. Em sua última reportagem, o Jornal de Brasília mostra mais um desafio para o próximo governo.

Se fosse para traçar um perfil específico, o desempregado da capital seria uma mulher negra e jovem. De acordo com a Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), elas são 54%, enquanto os homens são 46%. Por faixa etária, a procura por emprego é maior entre 16 e 24 anos, com 43,3%, seguido por 25 e 39 anos (32,8%), e 40 e 49 anos (12,3%). Negros também são maioria: 74,2%.

Na luta

A reportagem esteve em uma Agência do Trabalhador no Setor Comercial Sul. Entre os interessados nas vagas de divulgadas, mulheres dominavam a procura por emprego. Nádila Valquíria, 40 anos, está há três meses desempregada. Seu último cargo foi de operadora de caixa em um supermercado. Nesse tempo que ficou fora do mercado de trabalho, não parou. Para aprimorar o currículo, ela fez um curso de atendente de farmácia para tentar retornar e conseguir alguma vaga na área, além de abrir o leque de oportunidades.

Apesar dos estudos, Nádila já se desespera. A mulher alega que está à procura de qualquer posto de trabalho, seja ele temporário ou definitivo, com ou sem carteira assinada. “Falam que nessa época do ano tem mais trabalhos temporários, mas ainda não consegui nenhum”, lamenta.

Assim como Nádila, 87% dos desempregados procuram por uma oportunidade. Os outros 13% – 40 mil – desistiram no meio do caminho. Para o gerente de Pesquisas Socioeconômicas da Codeplan, Jusçânio de Souza, há ainda de se considerar a Região Metropolitana.

“Mais de 300 mil pessoas desempregadas é um número bastante expressivo. Porém, refere-se apenas de pessoas que residem no DF. Temos que levar em consideração que há ainda pessoas que moram na Região Metropolitana e procuram emprego no DF. Se somar o entorno, o número aumenta substancialmente”, sugere.

Desafio que o novo governo enfrentará para diminuir o desemprego Nadila Gonçalves relata que está a procura de emprego há 3 meses em qualquer área de atuação. Foto: Raianne Cordeiro/Jornal de Brasilia

Onde é mais crítico

Fercal, Itapoã, Paranoá, Recanto das Emas, SIA, Estrutural e Varjão concentram a maior percentagem de desemprego. São também as de menor renda do Distrito Federal e, juntas, somam 23,6% de pessoas desocupadas. No topo, Plano Piloto, Jardim Botânico, Lago Norte, Lago Sul, Park Way e Sudoeste/Octogonal, possuem uma taxa de desemprego de apenas 8,2%.

Segundo Jusçânio, a geração de emprego terá de focar nas rendas mais baixas. “São regiões com um perfil de escolaridade baixa. Então, para reduzir o contingente do desemprego, o DF vai precisar de um volume de postos de trabalho muito expressivo que demande esse tipo de mão de obra. É preciso retomar o setor da construção civil, além de contratações em serviços gerais e o emprego doméstico”, destaca.

O jovem Michael Bruno, 23 anos, atuou em vários setores dentro de supermercados: atendente, auxiliar e operador de estoque. “Há cinco meses estou fora do mercado de trabalho e hoje aceito um posto em qualquer área, principalmente se for com carteira assinada”, afirma.

Reação a definições políticas

Com a análise dos dados, Jusçânio de Souza, da Codeplan, acredita que o mercado está reagindo mesmo que lentamente. “A esperança que a gente enxerga é que, nos últimos meses, houve um período em que as pessoas estavam tão sem perspectiva de conseguir uma oportunidade que estavam indo para a inatividade”, observa. “O que acontece agora é que, timidamente, a oferta de vagas está aumentando, numa demonstração de otimismo”, completa.

Para ele, o fim das eleições colabora para o retorno da confiança da população. “Em função da crise política, tínhamos um cenário de incerteza desde o ano passado. Definido o processo eleitoral e com os futuros governantes já apresentando algumas das ações para a condução política e econômica, isso cria um ambiente de otimismo por parte das empresas. Na medida que o otimismo se espraia, as empresas, que antes estavam com o pé no freio, começam a abrir novas contratações”, esclarece.

“O desafio é estimular, atrair investimentos, para que novas empresas possam se instalar no DF”, completa.

Empregadores vão cobrar promessas

Entre os empresários, é unanimidade: Ibaneis Rocha terá de investir na celeridade dos processos, tendo em vista que a burocracia trava a geração de empregos. Atualmente, o setor de Serviços é responsável por 73% do total de ocupados do DF. Em seguida, vem o Comércio, com 242 mil vagas. Só nos últimos 12 meses, o segmento de educação aumentou em 15,7% a contratação. No entanto, para Álvaro Moreira Júnior, presidente do Sindicatos dos Estabelecimentos Particulares de Ensino (Sinepe-DF), a demora dos trâmites legais impede que a categoria avance mais.

“De maneira geral, o primeiro entrave são os aspectos burocráticos de criação de empresa na nossa área e toda regulação a ela relacionada. Educação é um setor altamente regulado. Toda a legislação de educação, trabalhista, tributária e de natureza local, como licenciamento, são extremamente burocráticos e morosos para o funcionamento”, aponta Álvaro.

Por isso, ele acredita que Ibaneis deva investir na agilidade dos processos. “É preciso uma legislação mais ágil para, por exemplo, conseguirmos o credenciamento da escola, licença de funcionamento”, afirma. “A questão tributária também pesa. Se ele entender que educação é prioridade, poderia isentar as escolas do ISS (Imposto sobre serviço). Vai ser preciso agir para fomentar o setor”, completa.

Por outro lado, o presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes (Sindhobar), Jael Antônio da Silva, indica que é preciso mais confiança nos empresários. “Estamos precisando de valorização como um todo. O empresário deve ser considerado um ente importante na recuperação da economia, na geração de emprego, na ascensão social das pessoas. Esse conhecimento da sociedade e governo é fundamental”.

A confiança, porém, deve vir acompanhada da redução de tributos e da burocracia. “O governo tem que deixar o empresário empreender e interferir cada vez menos. É preciso reduzir os tributos para a gente respirar um pouco e voltar a contratar. O próximo governador já se comprometeu. Se cumprir, daremos um passo à frente para a retomada da economia”.

Expectativa positiva para 2019

“O que está acontecendo agora é a expectativa de mudança. Um novo governo aumenta a confiança dos empresários”. O relato esperançoso é de Adelmir Santana, presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-DF). Para ele, embora demorada, a tendência é de a economia alavancar nos próximos anos. “Na verdade, a geração de empregos está totalmente interligada com a própria economia do DF e do País. Se não tiver desenvolvimento e investimento, não haverá emprego”, alerta.

O presidente da Associação Comercial do DF, Cléber Pires, também acredita que o próximo tenha resultados melhores do que 2018. “Todo o setor está otimista. Temos uma esperança grande de que a retomada do crescimento, da oferta de emprego, da geração de renda, seja imediata. Hoje, falta gestão e uma unidade do Estado. Se o time de técnicos estiver bem sintonizado, coisas boas acontecerão. Precisamos do Estado para nos ajudar. Se não atrapalhar, já será ótimo”, defende, ao apontar a burocracia.


Confira

O QUE IBANEIS PRETENDE FAZER

O novo governador Ibaneis Rocha (MDB), em seu plano de governo, promete que o desemprego será um problema prioritário a ser enfrentado. Por outro lado, ele próprio admite que a “abrir novos postos de trabalho é uma tarefa complexa que envolve múltiplos fatores”. Entre suas propostas está o incentivo ao primeiro emprego, ao oferecer a capacitação específica conforme um plano de geração de postos de trabalho, e a atração de novos investimentos. Nesse caso, ele irá dar prioridade a jovens e mulheres.

Além disso, ele se compromete a fortalecer o programa Jovem Aprendiz; viabilizar a formalização dos empreendimentos que atuam de maneira informal; intensificar a emissão de Carteiras de Artesanato do Programa de Artesanato Brasileiro (PAB) do DF; desenvolver e apoiar projetos para incluir deficientes, idosos, mães de baixa renda e jovens em situação de vulnerabilidade; e, por fim, aponta que irá desenvolver projetos de inclusão para profissionais de esporte e cultura.


Saiba Mais

De acordo com o Ministério do Trabalho, algumas profissões apresentaram crescimento significativo nos últimos anos, segundo os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais). As 20 ocupações que mais tiveram acréscimo na quantidade de profissionais entre 2007 e 2017 estão ligadas à saúde, educação infantil, agroindústria e tecnologia da informação.

A ocupação que mais cresceu no período está relacionada ao envelhecimento da população. Os cuidadores de idosos tiveram um aumento de 547%, passando de 5.263 profissionais em 2007 para 34.051 em 2017, dos quais 85% são mulheres com o ensino médio completo.

O professor de nível superior na educação infantil é a segunda profissão com maior avanço nos últimos anos e registrou aumento de 398%, saindo de 8.513 em 2007 para 42.391 trabalhadores em 2017. O maior acréscimo foi de profissionais do sexo masculino, entre 30 e 49 anos. Os preparadores físicos ocupam a terceira posição no ranking das profissões que mais avançaram. Com um crescimento de 327%.

O Jornal de Brasília mostrou ao longo dos últimos dois meses, os principais desafios que o novo governador terá de enfrentar no Distrito Federal. Saúde, transporte público, educação, segurança habitação e desemprego foram temas apresentados.

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