ADRIANA FERNANDES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
A XP e o Banco do Brasil discutem uma possível entrada da plataforma no consórcio de grandes bancos que participarão da operação de resgate do BRB (Banco de Brasília), após os prejuízos do banco do governo do Distrito Federal com a compra de carteiras de crédito e outros ativos sem lastro do Master.
O movimento partiu da corretora, que entrou em contato com o BB para obter informações sobre a operação, segundo pessoas a par das negociações. O banco público coordena o socorro.
A reportagem da Folha apurou que há uma cobrança nos bastidores por parte de alguns bancos de que a XP se envolva no resgate após a sua participação central na venda de CDBs (Certificado de Depósitos Bancários) do banco de Daniel Vorcaro.
Procurada desde a quarta-feira da semana passada (27) e nesta segunda-feira (1), a XP informou que não iria se manifestar. O BB também não se pronunciou.
A XP e o BTG foram as duas instituições financeiras que mais venderam os papéis do Master.
Reportagem da Folha mostrou que a XP tinha cerca de R$ 30 bilhões em títulos do conglomerado Master distribuídos, enquanto o BTG outros R$ 6,6 bilhões.
As vendas feitas pelas duas instituições financeiras representaram mais de 70% da captação com garantia do FGC emitida pelo banco de Vorcaro, segundo estimativas de mercado.
A participação das corretoras foi crucial para turbinar as captações do Master, que até poucos anos atrás era uma instituição financeira de pequeno porte e que, em sua liquidação, levou o FGC a fazer a maior indenização a investidores da história do país.
A estratégia de Vorcaro era vender CDBs do banco oferecendo alta remuneração aos investidores com a propaganda do seguro do FGC, que indeniza até R$ 250 mil por CPF. Assessores financeiros recebiam remuneração elevada na venda desses títulos bancários, esquema que foi alvo das críticas dos grandes bancos de varejo, principalmente do Itaú Unibanco.
“Um evento dessa magnitude, no final do dia, acaba gerando um impacto para a sociedade no custo, no custo de captação de novos empréstimos, no preço dos investimentos. Essa conta vai ser paga. Esse dinheiro ‘desaparece’ mas sai de outro lugar depois”, disse o CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, ao comentar os resultados do banco em 2025.
Os bancos cobraram do Banco Central maior responsabilidade das plataformas que vendem os ativos. O órgão estuda mudanças para tornar mais transparentes para os investidores os potenciais conflitos de interesse que existam na venda de títulos bancários, como os CDBs.
Procurados, Itaú e Bradesco informaram que não iriam comentar. BTG Pactual, Santander e Caixa não responderam ao pedido da reportagem.
As negociações do empréstimo ao BRB pelo FGC são sigilosas, e os detalhes só são divulgados se as partes concordarem. O FGC informou que não comenta casos específicos. Ao longo das negociações do Fundo com o Master até a sua liquidação, o nome da XP não aparecia na lista de instituições financeiras interessadas em participar de uma solução privada para o banco de Vorcaro.
O desenho da operação envolve a concessão do valor integral do empréstimo pelo FGC ao governo do Distrito Federal. Um pool de bancos formado pelas maiores instituições do país, integrantes do chamado S1 concederia uma fiança bancária ao empréstimo do FGC. A operação teria como garantia final recursos do Distrito Federal no FPE (Fundo de Participação dos Estados) e FPM (Fundo de Participação dos Municípios).
O presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, não comenta o interesse da XP na operação, mas informou à Folha que o BB está coordenando as conversas com os outros bancos após o acordo assinado com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a governadora do DF, Celina Leão (PP).
Ele informou que a fiança bancária deverá ser dada por Caixa, BB, Bradesco, Itaú Unibanco, Santander e BTG, todas instituições do chamado S1.
“O BB é protagonista. Pela porta da frente, entraram Banco do Brasil e Caixa Econômica, e continuam aqueles quatros bancos que são o Itaú, Santander, BTG e Bradesco”, disse.
Souza informou que, na negociação de conciliação no STF (Supremo Tribunal Federal) com o ministro Luiz Fux, um dos itens colocados foi o da necessidade de tempestividade na concretização do empréstimo.
“Ele sairá rápido porque houve um consenso de todas as partes presentes nessa audiência de que a urgência na concretização do empréstimo era importantíssima”, afirmou.
“Os bancos vão dar a fiança ao FGC e receber em contragarantia dessa fiança o fundo de participação do estado e município do do Distrito Federal. É uma operação inédita, uma operação bem feita. Não tem recurso nem aval da União, mas tem uma operação triple-A [nota de crédito máximo], ou seja, uma operação que nem vai carregar capital, porque é uma operação com nível máximo de segurança”, disse.
Até fechar o acordo no STF, o presidente Lula não tinha autorizado o BB e a Caixa a participarem de qualquer negociação de resgate do BRB.
O executivo ressaltou que a negociação com o FGC está adiantada porque o BRB, segundo ele, há cerca de três meses vem trocando documentos diariamente com o fundo. “O formato, a engenharia financeira final, não mudou”, disse.

A expectativa do BRB é de que o FGC empreste cerca de R$ 6,6 bilhões ao governo do DF, controlador do banco. O balanço do banco, previu, será divulgado até 30 de junho.
O presidente do BRB disse que a negociação envolveu o BC. O BRB vai entregar um novo plano de negócios para reestruturação do banco, como revelou a Folha.
O plano será apresentado ao pool de bancos e prevê novos cortes de despesas e foco da atuação do banco em Brasília e no entorno.
O BRB pediu ao FGC um empréstimo com prazo de 15 anos, 18 meses de carência e taxa de juros vinculada ao IPCA mais um valor que está sendo negociado. Não é garantido que o FGC aceitará essas condições.
“Nós temos que negociar o delta, mas é uma taxa menor do que se não tivesse garantia”, afirmou Souza.