Elaine Siqueira
elaine.siqueira@jornaldebrasilia.com.br
No Brasil todos os dias, nada menos que 14 crianças com menos de dez anos sofrem algum tipo de abuso sexual, segundo dados de 2011 do Ministério da Saúde. Para tentar amenizar essa dor e contar um pouco de histórias que se tornaram exemplos de vida, o projeto ViraVida, desempenhado pelo Conselho Nacional do Sesi, promoveu o 3º Seminário Nacional do ViraVida, no auditório do Conselho Nacional da Indústria (CNI), afim de apresentar jovens de 16 a 21 anos com baixa renda, que residem em periferias do país e que, portanto, já sofreram abusos de alguma forma.
O projeto, ao longo de quase três anos, tornou-se uma das maiores formas de restituição dos direitos dos jovens explorados sexualmente. O projeto é integrado por jovens de 16 a 21 anos que são acompanhados por pedagogos, professores, psicólogos entre outros. Em todo o país, o ViraVida já atendeu quase três mil jovens. Nessa caminhada, são oferecidos durante um ano cursos de capacitação profissional e acompanhamento psicossocial aos alunos que ingressam no projeto. Em Brasília, são 35 alunos que irão concluir seus cursos no próximo mês, sendo que 26 deles já estão encaminhados no mercado de trabalho.
T., de 17 anos, é um dos alunos da primeira turma do projeto aqui de Brasília e já tem seu emprego garantido no Ministério Público da União. Lá, ele vai iniciar sua carreira profissional como estagiário. Por dez anos, T. morou na rua, teve acesso às drogas, tornou-se dependente e foi abusado sexualmente por um conhecido que frequentava o mesmo ambiente onde ele passava suas noites.
Como maior parte das vítimas de abuso, T. não comentou o assunto a ninguém e se manteve calado. Contudo, depois de alguns anos, por iniciativa própria, procurou ajuda no ViraVida e agora já colhe bons frutos que ele mesmo escolheu para plantar. “Não passei na primeira seletiva, mas não baixei a cabeça, não desisti. A única coisa que poderia me impedir era o meu querer”, diz T.
A seletiva a que o jovem se refere começa após alguns órgãos competentes, como o Conselho Tutelar, Vara da Infância e diversas Organizações Não-Governamentais, encaminharem fichas de inscrição e relatório social aos responsáveis pelo projeto. Em seguida, acontece uma avaliação das fichas, dinâmica de grupo, “vivência de auto-estima” e uma prova de nivelamento de português. Aos que não forem chamados, sempre há uma segunda chance para se inscreverem.
Jair Meneguelli, presidente do Conselho Nacional do Sesi, reconhece a dificuldade dos jovens no momento em que são inseridos no projeto, pois eles chegam sem leis e sem costumes. “Muitos já tinham desistido de sonhar e agora se vêem formados e com boas instruções, prontos para viver dignamente na sociedade. O projeto é visto com ‘salva-vidas’, por que resgata a vida desses jovens, prepara-os para o mercado de trabalho e até mesmo para o bem próprio”, diz Jair.
O programa está presente em nove dos dez estados brasileiros com maior número de casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes, com exceção do estado de São Paulo, que ocupa o segundo lugar no ranking da Secretaria de Direitos Humanos. Os dados foram registrados pela Central de Atendimento Disque 100. “No momento, ingressamos em nove estados e temos a expectativa de ocupar o restante no segundo semestre de 2013”, afirma o presidente do Conselho, que também não descarta a possibilidade de acolher jovens com mais de 21 anos. Mas para isso, existem políticas públicas que precisam ser avaliadas.
Saiba mais:
– Cursos profissionalizantes oferecidos:
Senac: Auxiliar de administração, recepcionista e informática.
Senai: Panificação, vestuário, automobilística, elétrica predial, reparador elétrico, hidráulica e informática.
– Os alunos recebem bolsa de R$ 500 por mês.
– A cobertura do seminário foi toda produzida pelos alunos que, durante esta semana, fizeram oficinas de rádio, fotografia e texto na Universidade Católica de Brasília.
– O ViraVida foi premiado com uma das 50 melhores práticas em atuação no País e pode ser considerado uma ação específica de combate à exploração sexual de crianças e adolescentes.