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Brasília

Violência pega carona no transporte público

Arquivo Geral

08/06/2013 12h32

O transporte público do Distrito Federal é marcado pela   precariedade dos serviços prestados. Contudo, as dificuldades  vão além da  estrutura das empresas. Passageiros e rodoviários são obrigados a conviver diariamente com assaltos e outros tipos de crimes. Um exemplo é o que aconteceu na última quarta-feira, quando o cabo da Polícia Militar  Osmar Catarino Júnior foi morto por um colega da corporação, ao tentar evitar um assalto que acontecia dentro do coletivo.

 

Os números comprovam o alarmante crescimento do número de roubos a coletivos. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, os assaltos a ônibus aumentaram de 483 para 595 no primeiro quadrimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. É  um crescimento de 23,18%.

 

A frequência da prática criminosa tem sido motivo de pânico para passageiros e trabalhadores do sistema rodoviário, como a cobradora Joelma da Silva Ramos, que foi assaltada três vezes enquanto trabalhava. “Foi assustador. Eles apontaram a arma e levaram todo o dinheiro que tinha”.

 

De acordo com a cobradora, mesmo diante do susto, a única alternativa encontrada foi continuar trabalhando. “Eu fiquei com muito medo, mas preciso trabalhar. Não tem jeito”, destacou.

 

Seis vezes

 

Com dezesseis anos de profissão, o cobrador Manoel Cardoso, 45 anos, não se esquece dos  assaltos que sofreu. “Fui assaltado seis vezes. É uma situação traumática e o medo não passa nunca”, afirmou. Segundo ele, no momento do assalto, a vítima fica em estado de choque. “A gente fica paralisado, sem acreditar no que está acontecendo”, contou o trabalhador.

 

De acordo com o cobrador, após ser assaltado inúmeras vezes, ele já se acostumou com o medo que o acompanha durante a jornada de trabalho. “Parece que a gente cria   prática e vai sabendo como reagir. Chega a ser estranho falar isso, mas a verdade é que nos acostumados com isso”, disse.

 

OBJETOS

 

Para evitar ainda mais prejuízos, ele deixou de andar com objetos e acessórios de valor. “Gosto muito de relógios, mas nem posso comprar um de boa qualidade para trabalhar, pois sei que vão roubar. A gente trabalha e não pode nem usufruir do que compramos”, contou.

 

Segundo Manoel, o retorno à residência após um dia de trabalho possui significado especial. “É um alívio que não tem como explicar. Saímos com medo e voltar com vida é muito bom”, desabafou.

 

 

Abandono da profissão por causa do medo

 

A cobradora Elis Cristina, que foi assaltada três vezes em apenas um mês, conta que o medo a fez decidir abandonar o ofício. “Não quero mais trabalhar com isso. Decidi fazer a faculdade de Pedagogia e abandonar essa vida”, afirmou. 

 

O motorista Gilberlândio Valério de Oliveira, 34 anos, relata que desde que foi vítima de um assalto, no qual teve uma arma de fogo apontada para sua cabeça, o medo tem sido seu   companheiro. “Toda vez que vejo alguém suspeito entrando, fico com muito medo. Até porque eles não possuem uma maneira exata de agir. Alguns anunciam o assalto imediatamente, outros esperam o fim do percurso”, disse.

 

O motorista Marcelo Neves também afirma ser refém do medo. “Fui assaltado mais de cinco vezes e vejo colegas de trabalho passando por isso o tempo todo”, contou.

 
 
Cenas que não saem da cabeça
 
Vítima de um assalto à mão armada, o cobrador Francisco Pereira Sales  costuma carregar uma espécie de amuleto para o proteger durante o trabalho. “Carrego um santinho com mensagens bíblicas. Me sinto mais protegido”, relatou o trabalhador.
 
Francisco conta que no momento do assalto, só pensava na filha. “Fiquei com muito medo de morrer e só pensava nela. Saio de casa para trabalhar sem ter certeza que vou voltar”, afirmou. Para um futuro mais tranquilo, sua meta é ingressar em outra profissão. “Vou terminar os estudos e arrumar um trabalho mais seguro”, declarou Francisco.
 
 
Passageira
 
A copeira Maria do Carmo Lopes conhece o drama de ver o ônibus que a levava ao trabalho ser invadido por assaltantes armados. “Na hora, é um susto terrível. O bandido entrou, pagou a passagem, sentou perto do cobrador e no decorrer da viagem anunciou o assalto”, relatou, com tristeza.
 
Ela destaca que em função do medo de ser assaltada, tem alguns cuidados especiais. “Ando somente com a cópia dos meus documentos pessoais e não levo em hipótese alguma dinheiro na carteira”, afirmou Maria.
 
Medidas de segurança são esperadas para conter os crimes. De acordo com a Secretaria de Transportes, cada um dos 2.580 veículos adquiridos com a licitação contará com duas ou três câmeras. O objetivo, além de garantir a segurança, afirma o órgão, é registrar tudo o que acontecer no interior do ônibus. Além disso, os veículos deverão ter GPS  e ser  monitorados durante todo o trajeto.
 
 
Levantamento
 
Segundo a Secretaria de Segurança, até a próxima semana será divulgado um levantamento detalhado dos índices de assaltos aos coletivos. Além disso, o estudo mostrará quais são as linhas com a maior quantidade de assaltos.
 
 
Discussão de estratégias para o problema
 
A reportagem do Jornal de Brasília entrou em contato com o Sindicato dos Rodoviários, mas não conseguiu contato com o presidente, João Osório. Porém, representantes da entidade informaram que a sensação do sindicato é de preocupação com o cenário da violência no transporte coletivo. Em função disso, representantes do sindicato estão  se reunindo regularmente com dirigentes da Polícia Militar com o objetivo de buscar alternativas para coibir o aumento dessa prática criminosa.
 
Uma das alternativas encontradas pelo sindicato é a presença de policiais à paisana dentro dos ônibus nas linhas consideradas mais perigosas. Contudo, ainda não existem definições de quais medidas serão realmente adotadas.
 
Mais detalhes na edição impressa de hoje do Jornal de Brasília.

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