Eles foram gerados no mesmo ventre, cresceram juntos e sempre tiveram uma ligação que ultrapassava os limites do vínculo sanguíneo. Mas bastaram alguns minutos para o amor fraternal transformar-se em tragédia. Luis dos Santos Carneiro começou a debochar do irmão, insinuando uma possível homossexualidade. As brincadeiras não foram bem recebidas por José dos Santos Carneiro, que repetidas vezes avisou que não gostava das gozações. Em novembro do ano passado, inconformado com os deboches, José foi tomado pela fúria e deu uma facada no peito de Luis.
O triste episódio faz parte de uma estatística alarmante que cresce a cada dia: a dos homicídios qualificados por motivo fútil. São mendigos queimados por “brincadeira”, brigas entre vizinhos, discussões no trânsito e desentendimentos familiares que resultam em morte. Contudo, a maioria dos casos tem em comum o fato de serem oriundos de momentos em que a fúria toma conta da situação.
Entre a dor e a piedade
No caso da tragédia familiar descrita acima, o cenário conta com aspectos ainda mais delicados. De um lado, a família sofre pela perda e sonha com a justiça. Do outro, sentem compaixão do autor do crime. O pai da vítima e do assassino, Joaquim Elias Carneiro, relata que tem se dividido entre a dor e a piedade. “Sinto pena do José. Eles eram muito amigos e nunca sequer brigaram. Se eu pudesse voltar no tempo, isso nunca teria acontecido”, lamentou.
De acordo com Joaquim, o grande ensinamento que a fatalidade deixou foi respeitar o limite do próximo. “Nada justifica, mas eu acho que se as brincadeiras tivessem cessado, certamente isso não teria acontecido. Brincar é saudável, mas é essencial saber o momento de parar”, constatou.
Diante do cenário devastador, os familiares de ambos sofrem na pele as consequências. “As coisas nunca mais voltaram ao normal. Eu me sinto muito dividido. Por mim, acolheria meu filho novamente, afinal já perdi um e não tenho como recuperar. Mas a minha esposa e os irmãos ainda não o perdoaram”, relatou. Segundo Joaquim, os filhos da vítima sofrem muito com a situação. “Ele deixou sete filhos e uma esposa que necessitavam dele”, argumentou.
Segundo Joaquim, o filho José, autor do homicídio, perdeu a vontade de viver. “Ele está aguardando o julgamento em liberdade, mas não se perdoa. Hoje, a depressão tomou conta dos dias dele. Muitas vezes, ele me liga chorando e pedindo perdão”, afirmou.
“Nas definições doutrinárias, têm-se o motivo torpe como o moralmente reprovável, abjeto, desprezível, repugnante. Já o motivo fútil é o considerado insignificante, irrelevante ou banal”.
Na última quarta-feira, um pedreiro foi preso suspeito de ter matado e queimado o corpo de um colega depois de uma discussão por uma dívida de R$ 50. Segundo a polícia, ele confessou o crime. A dívida era referente à compra de uma televisão vendida pela vítima, outro pedreiro, de 24 anos. De acordo com a polícia, o suspeito se irritou com a forma como foi cobrado e matou o colega com uma faca.
Após o assassinato, o suspeito colocou o corpo junto de pedaços de madeira, isopor e papel e ateou fogo, conforme contou a polícia. A delegada Tânia Soares, da 38ª DP (Vicente Pires), afirmou que o pedreiro saiu para comprar cerveja e assistiu à queima do corpo bebendo.
O pai de P.S sempre trabalhou com arrendamento rural – cedia determinada área de sua propriedade e recebia um valor pré-fixado por seu uso. A prática prevê o penhor dos bens do arrendatário caso os compromissos não sejam cumpridos. Entretanto, em 2003, ele viu surgir o abismo que o levaria à morte. “Meu pai arrendava as terras com o pai do assassino. E como ele estava doente e prestes a falecer, eles realizaram a redivisão. Com isso, após o falecimento, metade ficou para ele e a outra metade para os filhos”, explicou P.S..
Problemas
Com o passar do tempo, começaram a vir à tona os problemas. “Os conflitos com o herdeiro das terras começaram a pipocar. Em uma dessas vezes, meu pai precisava cortar umas árvores dentro da sua propriedade e por motivos totalmente injustificados ele era contra. Mas, como meu pai iria fazer isso em seu terreno, ele não se intimidou”, conta. Entretanto, a atitude lhe custou a vida.
No dia em que foi até à propriedade, o pai de P.S. teve sua vida ceifada. “Ele passou com o carro em cima do corpo do meu pai umas quatro vezes”, lembra, emocionado. Segundo ele, seu maior desejo é reconquistar a vontade de seguir em frente. “O que eu tinha de mais valor, perdi. Retomei algumas atividades, mas meus dias estão muito tristes. É um vazio imenso”, diz.
A fúria que acaba em tragédia
O jovem Álisson Gomes Pereira sempre foi uma pessoa considerada calma por amigos e familiares, mas isso não foi o suficiente para lhe garantir segurança. Era cerca de seis horas da tarde, o jovem de apenas 22 anos de idade estava perto de casa quando foi alvejado por vários tiros aparentemente sem nenhuma justificativa. É o que conta a mãe dele, S.F.S. “Ele sempre foi muito caseiro. Era de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu. É tudo muito doloroso. A dor que estou sentindo não desejo para ninguém”, declarou.
Ainda segundo a mãe da vítima, seu único desejo é o de justiça. “Desejo que a pessoa que fez isso pague. Meu filho estava indo para casa quando isso aconteceu. Ele saiu e nunca mais voltou”, disse, emocionada. O jovem deixou a esposa grávida de cinco meses.
Limite
Para o psicólogo Luiz Flávio Evangelista, as reações violentas em determinadas situações não são pontuais. “Na maioria dos casos, o que leva a pessoa a reagir violentamente não são os motivos visíveis, como a simples fechada no trânsito ou a música alta no vizinho, mas, sim, o acúmulo de situações estressantes a qual é submetido, como por exemplo a rotina de trabalho, as cobranças de todas as partes e as diversas atividades diárias”, assegura.
De acordo com o psicólogo, a rotina atribulada está diretamente ligada à maioria dos casos de crimes praticados por motivos fúteis. “O que acontece hoje é que as pessoas estão se sobrecarregando muito e, com isso, dispensando menos cuidados a si mesmos. Além disso, vivem estafadas e expondo sua fúria frente a situações banais”, adverte.
Luiz Flávio acredita que o segredo para fugir dos momentos de tensão é procurar sempre manter o controle. “Na maioria dos casos, a calma pode ser retomada através do controle da respiração”, declarou.
Manter a Calma
De acordo com o psicólogo Luiz Flávio, é essencial que as pessoas evitem algumas atitudes no momento em que estão com raiva. “É recomendado evitar falar e tomar atitudes nestes momentos, pois a tendência é ter reações extremas, que podem causar arrependimentos posteriormente”, destacou o psicólogo.