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Brasília

Usuários de crack encontraram caminhões abandonados de um supermercado como refúgio

Arquivo Geral

23/05/2012 7h04

Carlos Carone
carone@jornaldebrasilia.com.br

 

Como mo zumbis, os usuários escravizados pelo crack perambularam por pouco tempo até arrumar um novo local para queimar as pedras com tranquilidade, após a demolição do chamado Castelo de Greyskull, que ficava em Ceilândia Norte. Agora, após a demolição do local, o novo refúgio são as boleias de caminhões abandonados de propriedade de um supermercado. Os veículos se deterioram em um terreno baldio, próximo a Quadra QNN 11, a poucos metros do local onde ficava o castelo. Consumir drogas nas galerias de águas pluviais que margeiam a linha do metrô parece ter se tornado coisa do passado para os usuários.

 

Durante uma tarde inteira, a reportagem do Jornal de Brasília acompanhou a movimentação frenética dos usuários que entravam e saíam dos caminhões, sempre que resolviam queimar algumas pedras. O novo esconderijo se tornou a morada de alguns. Ao estender papelões e cobertores para cobrir os vidros das boleias, os dependentes encontraram o lugar que julgam perfeito para se drogarem escondidos dos olhos de curiosos e, principalmente, da polícia.

Sob o efeito das pedras, alguns desfalecem por entre os assentos do caminhões. Nem com a aproximação da reportagem e dos cliques da máquina fotográfica, os usuários despertam. Grupos chegam a dividir, ao mesmo tempo, o mesmo caminhão. O chamado baú, contêiner traseiro antes utilizado para o carregamento de produtos alimentícios, tornou-se local para esconder drogas, roupas e até colchões.

Acordado pela reportagem, um dos viciados chegou a dizer que trabalhava como “vigia” do estacionamento. No entanto, quando ele abriu a porta da boleia, deixou escorregar uma lata de alumínio que estava com as beiradas queimadas. “Estou só descansando”, disse o homem. Perguntado se era realmente o vigia e onde estava seu crachá ou autorização para trabalhar no local, o suposto usuário de crack se irritou e bateu a porta do caminhão.

 

As opções de boleias são muitas. A frota de caminhõe

 

s abandonada pelo supermercado no terreno baldio conta com pelo menos oito veículos. Todos estão sendo usados pelos usuários. Na boleia ao lado, um casal estava se drogando escondido por uma cortina improvisada com cobertores. “A gente não tava fumando”, disse o homem ao ver a reportagem. Logo depois, os dois deixaram o local apressados. Ambos deixaram para trás, dentro da boleia, latas queimadas e uma fumaça que se espalhava pelo interior do veículo.

 

A reportagem foi ao supermercado conversar com um dos gerentes do estabelecimento sobre a utilização dos caminhões por parte dos antigos moradores do Castelo de Greyskull. “Isso começou há pouco tempo, pouco depois da demolição. Já chamamos a polícia diversas vezes e essas pessoas são retiradas. Mas horas depois, elas voltam e continuam a usar crack dentro dos caminhões”, diz Benedito Rodrigues, um dos gerentes.

 

Mesmo com a tentativa de esconder o crime que ocorre dentro dos caminhões, é possível visualizar, de longe, pelo para-brisa, faíscas  no momento em que os usuários acendem o cachimbo de crack improvisado com as latas de alumínio.

 

O ambiente dentro das boleias é insalubre. Muita sujeira, vestígios de urina e fezes, restos de comida estragada em meio aos ferros retorcidos pelo tempo tornam o local no interior do veículo suportável apenas para os usuários que estão sob os efeitos do crack. Muitos deles foram flagrados dormindo dentro dos caminhões, mesmo com o mau cheiro que exalava da boleia.

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