A manhã começou tensa na UnB Gama. Antes das 9h, estudantes veteranos planejavam um protesto na Reitoria contra o atraso das obras do novo campus. Os professores recebiam os calouros, mas não escondiam insatisfação com a notícia de que teriam que adiar a transferência do Fórum e do Sesc para as novas instalações. Às 9h20, o reitor chegou ao Gama. Foi uma visita surpresa.
“Eu não poderia deixar de vir aqui, sabendo das circunstâncias difíceis que estamos enfrentando no Gama. Estamos ao lado de todos os envolvidos em resolver essa situação com boa fé”, explicou o reitor aos 200 calouros da instituição. Mais tarde, José Geraldo se reuniu com cerca de 40 professores e constatou o clima de decepção dos docentes com a notícia do atraso. “Manter as aulas aqui é a solução mais adequada agora, mas me senti muito frustrada por receber a informação quase na véspera do começo das aulas”, disse a professora Maria de Fátima de Souza.
A decana de Ensino de Graduação, Márcia Abrahão Moura, explicou que em janeiro os técnicos do Centro de Planejamento identificaram problemas no cronograma nas obras. Na época, o Decanato solicitou à direção da UnB Gama que mantivesse a lista de oferta de disciplinas no Fórum e no SESC. “A direção, no entanto, optou por apostar no fim das obras”, lamentou a decana. Ela ofereceu alternativas para compensar o a falta de espaço. “Podemos usar todos os horários disponíveis na universidade que vão das 8h às 19h50, o que já é feito em outros campi e permitido pelo regulamento da UnB”, ressaltou.
O diretor da unidade, professor Alessandro Borges, disse que está empenhado em encontrar uma solução. “Somos engenheiros. Vamos nos adaptar para solucionar o problema sem prejudicar as aulas”, disse Alessandro. Não haverá aulas na UnB na terça e na quarta. Com o atraso nas obras, a grade horária das disciplinas está sendo refeita. Uma reunião do colegiado da Faculdade vai discutir a aprovação dos novos horários na quarta-feira, às 14h. Depois dessa reunião, os alunos serão informados sobre o início das aulas.
“Podem ter a certeza que os sacrifícios estão chegando ao fim e que em poucas semanas vocês já estarão na nova sede, que lhes encherá de orgulho”, disse o reitor. “Não houve a mudança para o novo prédio por uma recomendação técnica de engenheiros. Ainda falta água potável e instalação elétrica. Minha orientação é que a pós-graduação, por ser menor, já pode funcionar lá”.
“Todas as matrículas tinham sido feitas com base no novo espaço”, contou a estudante de Engenharia de Energia, Karoline Martins. “É um desrespeito o que estão fazendo”, desabafou a jovem que se uniu a outras centenas de estudantes que também não tiveram aula. “É o quarto atraso na entrega da obra. Toda a UnB está em aula e nós não”, questionou o estudante de Engenharia Automotiva, Victor de Sousa.
“Convivemos com a expectativa de ter um campus há quase três anos”, disse professor Rudi Henri Van Els. “Já não contamos com um espaço adequado para o número de alunos que temos”, completou.
O reitor José Geraldo convocou a comunidade a se unir para superar a fase transitória. “Passamos por uma espécie de refundação da UnB que para ser completa precisa estar em todo o DF”. O professor ainda lembrou os tempos da inauguração da UnB, em 1962, quando nomes como Glênio Bianchetti e Oscar Niemeyer usavam as sombras das árvores como sala de aula. “Mesmo com todos os obstáculos, é preciso construir o orgulho de ser UnB”.
“Professor, o senhor fala muito bonito, mas nosso problema é de estrutura”, rebateu Diogo de Oliveira, aluno e técnico da universidade no laboratório de física do Campus Darcy Ribeiro. “Não é uma questão de falar bonito. É uma questão de realidade. Temos que trabalhar com a realidade. E a realidade é que é possível ter aulas, mesmo enquanto o novo campus não fica pronto”, rebateu o reitor.
No final da manhã, o presidente do Centro Acadêmico, Victor Hugo de Sousa, anunciou a aprovação de um indicativo de greve dos estudantes por unanimidade. “Não vamos fazer nada bagunçado”, prometeu.