As mesmas mãos que, trêmulas, formam as frases que não saem dos lábios de Samuel Antunes cunham joias únicas e delicadíssimas. O morador de Ceilândia, de 21 anos, nasceu com surdez profunda e está trilhando um caminho de superação, apesar do preconceito que precisa combater diariamente. Após terminar um curso de ourives, conseguiu trabalho em uma joalheria na Asa Norte.
Samuel mora no condomínio Privê, em Ceilândia, com três irmãos e a mãe, que veio de Minas Gerais e trabalha como doméstica. Estudante do segundo ano em uma escola pública de Taguatinga, onde há intérpretes e aulas especiais para deficientes auditivos, Samuel foi convidado pelos professores para participar de um curso de ourives em outubro de 2012. “No final do curso fizemos uma visitação nesta loja. A dona falou que daria uma oportunidade para um de nós. Eu e um colega fizemos a entrevista e eu passei. Minha mãe falou que eu fui escolhido porque o meu acabamento nas peças foi o melhor”, conta o tímido rapaz.
Riqueza de detalhes
O cuidado com os detalhes é uma característica de Samuel Antunes, que sonha um dia se formar em Arquitetura. Quem o conhece elogia muito as obras e diz que ele tem talento. “Gosto de desenhar desde criança. Gosto de copiar figuras e fotos e fazer algo diferente, melhorar de alguma forma. Às vezes, mudo as cores, aumento o tamanho ou troco um detalhe”, aponta.
Ele relata que o trabalho calmo o deixa feliz e satisfeito. E completa: é preciso ter paciência. Ele ainda sente dificuldade com algumas peças, mas sempre que precisa pode contar com a ajuda de colegas. “Era novato e ainda por cima, por ser surdo, fui criando barreiras para a comunicação e relacionamentos, me isolei. Tinha que ir lembrando o que tinha aprendido no curso e fui me soltando. Aos poucos fui até pedindo ajuda quando precisava”, confessa.
Todos os funcionários da joalheria onde ele trbalha pretendem fazer o curso de libras para poderem se comunicarem melhor com o novo colega de trabalho.
Apoio
Quem está sempre lá para ajudar da forma que pode é Diego Rafael de Souza. Ele tem 29 anos e trabalha como ourives há mais de 15 anos. Ele escreve em papéis, usa gestos universais, enfim, faz do jeito que pode para se comunicar com o colega, sem nunca ter passado pela cabeça qualquer tipo de preconceito. “A limitação dele é só auditiva. Sempre soube que ele teria capacidade de fazer isso. Demoramos um pouco mais para nos comunicarmos, mas eu vou mostrando as coisas, ele vai observando e está melhorando muito”, diz o colega de trabalho de Samuel.
Preconceito é o que mais incomoda
Samuel também se comunica por desenhos com a designer de joias e dona da joalheria, Vânia Ladeira, e conta com a ajuda da intérprete Gleyciane Melo.
“Fico muito feliz de estar dando essa oportunidade e descobri que outro garoto da turma dele foi contratado essa semana”, conta Vânia.
Ela sempre deixa muito claro que Samuel não será tratado de forma diferente. “Isso não é caridade, ele foi contratado para uma vaga de emprego paga como qualquer outra”, conclui a chefe.
O jeito simples, calmo e tímido de Samuel fica claro na linguagem corporal, aliado de sua comunicação com o mundo. O único assunto que o faz se exaltar é o preconceito. “Não conseguimos entender os motivos para alguém ficar olhando, zombando ou até tendo dó da gente. Gostaria que as pessoas me cumprimentassem normalmente e soubessem que somos iguais”, suplica, repetindo incansavelmente o sinal para igualdade.
Saiba Mais
A língua brasileira de sinais (Libras) é usada pela maioria dos surdos dos centros urbanos brasileiros e reconhecida pela Lei 10.436/ 2002.
Os sinais surgem da combinação de configurações de mão, movimentos e de pontos de articulação — locais no espaço ou no corpo onde os sinais são feitos, os quais, juntos, compõem as unidades básicas dessa língua.