Apenas dois quilômetros separam a Rodoviária do Plano Piloto do Estádio Nacional Mané Garrincha, a obra mais cara do Distrito Federal, que vai custar aos cofres públicos, segundo estimativa do Tribunal de Contas do DF, R$ 1,6 bilhão. Mas enquanto na arena brasiliense, até agora a mais cara do País, o clima é de festa para a abertura do Campeonato Brasileiro, com o jogo Santos e Flamengo, no coração de Brasília e áreas vizinhas um time de zumbis, vítimas do crack, estão em campo.
Um dado da Secretaria de Justiça do DF revela que apenas no Plano Piloto, na área que engloba as proximidades da Rodoviária e do Touring, e setores Comercial Sul e Norte, são dois mil viciados em crack. Não bastassem os problemas que causam a eles próprios e às suas famílias, os usuários engrossam as estatísticas da violência, noite e dia, na área central da capital da República. Para manter o vício, muitos roubam e furtam para trocar o que conseguem pelas pedras da droga. E embora muitos especialistas defendam a internação compulsória como a única saída para a epidemia das pedras, no DF ela só funciona com intervenção judicial.
A área central de Brasília, entretanto, não é o único ponto do DF onde os usuários se reúnem. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado no início do ano passado, revelou a existência de 12 áreas críticas de uso de crack, distribuídas em nove cidades. São elas o Plano Piloto, Ceilândia, Sobradinho, Planaltina, Paranoá, São Sebastião, Guará, Recanto das Emas e Gama. Cinco destas áreas já se transformaram, segundo o estudo, em verdadeiras cracolândias.
Vestígios
Esse efeito destrutivo do crack corrói também a cidade, seus moradores e equipamentos urbanos. As latinhas retorcidas jogadas na rua, usadas como cachimbos, evidenciam por onde a droga passou. É o rastro da violência. A escalada do crack impulsiona a criminalidade no DF. Um levantamento do IML mostrou que as drogas estão diretamente relacionadas aos assassinatos. Em 2010, 53% dos brasilienses mortos a tiros usaram substâncias produzidas a partir da cocaína.
Pense nisso
Com seu altíssimo potencial viciante e efeitos devastadores no ser humano – no corpo e na mente –, o crack pode ser considerado uma das últimas fronteiras na escala das drogas. Quem adere ao crack se entrega a um poderoso inimigo, que, via de regra, para ser expurgado, requer esforços hercúleos tanto do viciado quanto daqueles que o cercam, quanto suas famílias. E, o pior, sem qualquer garantia de que, ao retornar à sociedade estará de fato livre. Agora, com investimentos e política públicas adequadas, seria possível, se não acabar com o problema, ao menos melhorar muito o cenário atual. Nossa sociedade, como um todo, merece maior traquilidade.
Recursos não chegam ao tratamento
O consumo de crack no DF disparou nos últimos seis anos. Em 2007, segundo a Secretaria de Segurança Pública do DF, foram apreendidos apenas 500 gramas da droga. Em 2012, foram 26 toneladas apreendidas por operações da Polícia Civil entre janeiro e novembro, o que corresponde a um crescimento de 44%, em comparação com 2011, quando 18 toneladas foram retidas.
Em dezembro de 2011, o Governo Federal lançou um programa de combate ao crack e anunciou a abertura de mais de 13 mil leitos para usuários de álcool e drogas, em todo o País. A previsão é investir R$ 4 bilhões até 2014. Segundo a Casa Civil da Presidência da República, até agora já foram gastos R$ 1,2 bilhão, 30% do total.
No mesmo ano o GDF lançou um programa semelhante. Porém, dados do Relatório Anual de Atividades de 2012 mostram que no orçamento da Secretaria de Justiça, da dotação inicial de R$ 1,3 milhão prevista para a assistência aos dependente químicos, nem um centavo foi liberado.
Comércio só aumenta
O que leva as famílias a buscarem ajuda na internação dos parentes viciados é o serviço público, prestado no DF por meio dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD), que não força o viciado a se tratar. O que só agrava a situação, segundo o psicólogo Paulo Lemos. “Como um viciado consumido pelo crack vai poder ter o discernimento de saber o que é melhor ou não para ele? Para ele, o único remédio é uma pedra de crack”, argumenta.
E no mesmo ritmo acelerado que o debate sobre a internação compulsória toma conta do País, o comércio da droga ganha força a poucos metros da Esplanada dos Ministérios. Prostitutas, travestis, homens vestidos de calça social e blazer e até motoristas de carros identificados como táxi ajudam na distribuição e circulação das pedras.
A pedra de crack pode ser vendida por R$ 10 ou R$ 15, dependendo do cliente. Como é mais barata, está tomando espaço da merla, até então bem mais comum no DF.
E o perfil do consumidor varia. Vai desde o menino de rua até os mais abastados, apesar do poder destrutivo da substância. A quarta inalação se revela capaz de provocar dependência e danos irreversíveis ao cérebro.
“Estou entregue ao vício e não tenho vontade de fazer mais nada. Até tenho vontade de largar, mas não tenho ajuda de ninguém”, disse à reportagem J., que disse ter apenas 14 anos.
A especialista em farmacologia clínica Patrícia Medeiros de Souza, do Departamento de Farmácia da UnB, alerta para a dependência quase instantânea. “A partir de duas, três vezes que se usa, a situação começa a ficar mais arriscada. Os danos ao cérebro são grandes e irreversíveis. Em alguns casos, a pessoa jamais volta a ser a mesma”, comentou.
“pão e circo”
“Trabalho na Rodoviária há 17 anos. E o problema das drogas não acaba e aumenta cada vez mais. Tem horas que duvido que o governo queira realmente resolver isso”, desabafou o taxista Sebastian F. de Lima. Na opinião do trabalhador, o GDF tem apresentado mais empenho em obras como a construção do estádio de futebol do que no combate a problemas como o crack.
Palavras semelhantes são ouvidas por diferentes cidadãos que enxergam a postura de “pão e circo” no GDF. “Não vejo o mesmo empenho que tiveram para o estádio no combate ao crack. O que vejo são as coisas piorarem”, completa Rubens Castro.
A droga também é flagrada no Conic. O consumo é rápido. Em dez segundos a dose chega ao cérebro do usuário. E os efeitos duram de dez minutos a 15 minutos. Nas vizinhanças do Conjunto Nacional e no Setor Comercial Sul (SCS), o crack está presente a cada esquina.
Enquanto isso, famílias desesperadas recorrem à Justiça para conseguir internar compulsoriamente os dependentes. Na Defensoria Pública, só em fevereiro foram 144 solicitações, média de 5 por dia.