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Brasília

Treinador e jogadores surdos contam sobre a importância do handebol na inclusão

Marcelo Cubano, atual treinador, em seu primeiro treino com o time, o atleta conta que o grupo não sabia nem os fundamentos do esporte

Ana Flávia Aguiar

28/02/2024 18h30

Foto: Ana Flávia Aguiar

Foi em 2015 que Marcelo Cubano, então com 33 anos, ouviu falar pela primeira vez sobre a Federação Brasiliense Desportiva de Surdos (FBDS). Na época, ele navegava pelas redes sociais quando recebeu a notificação de que o time de handebol procurava um técnico e, sem estar treinando nenhum grupo, se candidatou à vaga.

Ainda que o encontro tenha sido por acaso, as coisas não seriam tão simples. Em seu primeiro treino com o time, o atleta conta que o grupo não sabia nem os fundamentos do esporte. Sem saber Libras, a linguagem de sinais brasileira, Cubano pensou: “Cara, como eu vou fazer isso?”.

Mas as barreiras linguísticas não fizeram o treinador desistir. Hoje, a intimidade e liberdade são maiores, de maneira que a conversa entre o time e o professor vai além do esporte em si. “Às vezes os alunos deixam a deficiência ser um impeditivo, brigam e são teimosos. Mas eu sempre converso com eles para que eles não deixem ela ser uma limitação e eles entendem, mesmo que depois de muitas broncas”, conta.

Outro problema que Marcelo enfrenta com o time é a falta de costume com o contato físico. Segundo o treinador, a maioria dos alunos tem muita vergonha, ainda que o handebol seja um esporte de contato intenso.

“Por exemplo, na defesa do handebol, o jogador deve agarrar e segurar o seu adversário que está tentando atacar. Durante um treino, eu pedi para que uma das atletas me ajudasse a demonstrar esse movimento, mas todos os alunos começaram a rir, o que a deixou sem graça”, explica o treinador.

Realizações

Em 2019, mesmo que sem prática na modalidade, Samantha Santos se ofereceu para ser goleira do time de colegas para um campeonato. “Na época, eu atuava como goleira de futsal, por isso me ofereci, mesmo sabendo que as técnicas de ambas modalidades eram diferentes”, explica a atleta.

Mas, para a surpresa dela, seu interesse pelo handebol virou vontade de aprender. “Com pouco tempo de preparo nos treinos, meus amigos diziam que eu estava indo bem. Mas eu sabia que eu precisava melhorar para continuar na modalidade”, continuou.

Nos dois anos seguintes, Samantha continuou treinando e, em 2021, em um segundo campeonato, ela se ofereceu para participar novamente, dessa vez com muito mais entusiasmo. “A medida que ia me preparando para o campeonato, mais eu gostava e me interessava pelo esporte”, diz Samantha.

Em um dos jogos, a atleta descobriu que a Seleção Brasileira dos Surdos de Handebol estava no local para pré-convocar meninas para representar o Brasil no Deaflympics (Olimpíadas dos Surdos – Surdolimpiadas) 

“Eu não esperava que fosse ser convocada. Neste dia, fiquei muito feliz com a pré-convocação e comecei a me empenhar mais nos treinos e preparos físicos. Neste campeonato, a minha equipe ficou com vice-campeã”, conta Samantha orgulhosa das conquistas.

No ano seguinte, Samantha representou o país nos jogos, que aconteceu em Caxias do Sul (RS). “A estreia foi contra Argentina e eu comecei como goleira titular para defender, o que foi muito emocionante para mim. Eu sempre sonhei em representar o Brasil e fico feliz de ter tido essa oportunidade de realizar o meu sonho através do handebol”, afirma.

Naquele ano, o time feminino conquistou a primeira medalha “surdolímpica” da história do handebol do esporte em si. “Fazer parte dessa conquista, é muito gratificante e mudou a minha vida. Ela me fez perceber que eu realmente gostava da modalidade e o meu desejo de continuar no handebol e representar o meu país continua crescendo. Hoje em dia procuro treinar e aprender mais a cada dia, buscando sempre melhorar. Assim como a minha equipe do DF precisa de mim, a seleção brasileira também precisa. Fico feliz que as pessoas que me acompanham de perto, acreditam muito em mim e falam que tenho potencial no handebol”, finaliza.

Lesões

Outra forte característica dos esportes, especialmente os de contato, são as constantes lesões dos atletas. Esse foi o caso de Rebeca de Meneses, que começou a jogar handebol em 2017, aos 26 anos.

Segundo a atleta, na época, seus amigos com deficiência auditiva que já jogavam foram os responsáveis por apoiá-la a entrar no time.”Nós jogamos o amistoso no Guará e em Taguatinga para pessoas surdas, organizado pelo professor Esdras Custódio, que é uma pessoa surda oralizada”, contou.

Ainda assim, Rebeca conta que nunca participou de campeonato, já que seu objetivo era apenas praticar alguma atividade física. Mas isso não impediu que, em seu último treino, ela torcesse o tornozelo. “Fiz o acompanhamento com fisioterapia, mas, mesmo recuperada, não voltei a treinar. Foi só em 2023 que eu decidi voltar”, continua.

Regras

No decorrer do treino, o técnico depois dos exercícios de fundamentos, inicia o coletivo. O coletivo é a forma de colocar todo o treinamento em prática no jogo. Ao ser questionado se tem alguma mudança nas regras para as pessoas surdas e as ouvintes, o profissional diz que sim.

O árbitro deve usar sinais, gestos e apito – já que existem pessoas sem deficiência auditiva no público. A grande alteração é a bandeira, útil para sinalizar determinadas situações de jogo.

Na questão da comunicação, muitos ali possuem o grau de surdez moderado ou leve. Ao chamar todos para explicar os erros, Marcelo tem o auxílio de alguns atletas que entendem. Lindolfo, atleta surdo com grau moderado, repete o que Marcelo fala em gestos de libras, mesmo o treinador tendo pouco conhecimento de libras.

Campeonatos e Seleção Brasileira

O treinador descreve que com o passar dos anos, mais atletas foram chegando e alguns já tinham conhecimento do esporte, com isso ele levou alguns a participarem da Seleção Brasileira, jogando campeonatos fora do Brasil.

Além dos campeonatos pela Seleção Brasileira, ocorre os campeonatos jogando pela Federação que ocorrem em território brasileiro.

Equipamentos

O profissional conta que todos ao entrar no projeto, recebem todos os equipamentos individuais, e ele além dos individuais, recebem os equipamentos do coletivo.

Nos equipamentos individuais, recebem: camiseta, short, bolsa e garrafa de água. Já nos equipamentos do coletivo temos: Bolas femininas e masculinas, cola, removedor de cola, cones, coletes, entre outros.

Os treinos de handebol ocorrem toda quinta-feira às 19:30 na quadra do Centro de Integração de Educação Física na Asa Sul (CIEF). Todos estão convidados para assistir ou participar dos treinos, sendo surdos ou ouvintes.

Para mais informações, seguir nas redes sociais:

Instagram: @fbdsdf

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