Mais de 67% dos casos de violência doméstica são testemunhados por crianças, segundo pesquisa da Secretaria da Mulher, dados que reforçam ainda mais a necessidade de tratamento desses pequenos personagens que chegam acompanhados de suas mães à Casa Abrigo.
“É muito recorrente que crianças que conviveram com esse tipo de realidade reproduzam na fase adulta, ou se mantenham vítimas. Nosso esforço na casa é mostrar que o conflito existe, mas que eles podem ser resolvidos através do diálogo”, ressaltou hoje a Secretária da Mulher, Olgamir Amancia.
A agressão e a culpa são sentimentos que caminham lado a lado com a criança que já presenciou ou foi vítima da agressão doméstica. De acordo com a coordenadora do Programa de Abrigamento, Karla Valente, essas vítimas necessitam de acompanhamento psicológico para mudar sua realidade.
“Muitas se sentem culpadas pelo pai agredir a mãe ou mesmo por sentirem raiva do agressor. Elas expressam essas emoções por meio de atividades lúdicas, como música, desenhos e trabalhos artísticos e saem da Casa Abrigo com o tratamento já bastante avançado”, relatou Valente.
De acordo com a coordenadora, caso a mãe não consiga dar continuidade ao tratamento do filho fora da instituição, a melhor forma de cuidar do futuro dele é romper o vínculo da agressão dentro de casa por meio de diálogo e comportamentos positivos.
Para a secretária da Mulher, o amor é o principal motivo que mantem a vítima com o agressor por tanto tempo. “A agressão não faz com que a vítima deixe de amar o parceiro. Essa violência está contaminada por essa lógica de sentimento, e a mulher mesmo sabendo que aquilo está errado continua amando”.
Segundo a secretária, a mulher foi educada em nossa sociedade para ser subserviente e convencida sempre de se calar para manter seu relacionamento, mas por mais contraditório que seja denunciar alguém que se ama, essa ação deve ser feita, pois “a morte das mulheres vítimas da violência é algo anunciado”.
REALIDADE – O acompanhamento psicológico às famílias tem continuidade após a saída da Casa Abrigo, onde filhos e mães, incluindo o agressor, são encaminhados ao Núcleo de Atendimento à Família e aos Autores de Violência Doméstica (NAFAVD) ou ao Centro Especializado da Mulher (CEAM).
Em todos os casos, há terapia individual e coletiva para os envolvidos e, geralmente, o tempo de acompanhamento é de seis meses, sendo prorrogável a depender do caso. “Os agressores não são tratados e sim trabalhados para fazerem reflexões acerca da forma como viviam”, explicou a secretária.
Durante o período em que estão na casa, as mulheres são avaliadas por assistentes sociais para receberem os benefícios sociais a que têm direito, e podem receber salário-aluguel e Bolsa Família.
E para àquelas que não possuem nenhuma perspectiva de trabalho, a Secretaria da Mulher procura inserir essas mulheres, na medida do possível, em programas de qualificação profissional e na rede de empregos.
Denúncia – Fazer a denúncia é o primeiro passo para a mulher ser encaminhada à instituição. “As vítimas de violência devem registrar ocorrência em qualquer delegacia ou na própria Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), onde ela já poderá pedir abrigamento se sentir que corre risco de morte”, explica Olgamir.
De acordo com a secretária, a sociedade também é fundamental nesse processo, pois a lei permite que qualquer pessoa, caso presencie ou saiba de alguém vítima de violência física, faça a denúncia, mesmo sem a permissão da mesma, basta ligar para os números 180 ou 156 opção 6.