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Brasília

Testemunha flagrou sequestradora abordando várias mães no Hran

Arquivo Geral

08/06/2017 7h00

Atualizada 07/06/2017 23h49

Matheus Oliveira / Agência Saúde-DF

Jéssica Antunes e Manuela Rolim
redacao@jornaldebrasilia.com.br

O depoimento de uma funcionária do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), uma das testemunhas-chave no caso do bebê raptado da unidade na última terça-feira (6), ajudou a Polícia Civil a prender a sequestradora ontem. Com exclusividade ao Jornal de Brasília, a depoente relata os momentos que antecederam o sumiço da criança.

A servidora foi a primeira a encontrar a acusada Gesianna de Oliveira Alencar, 25 anos, por volta das 7h30. “Quando cheguei na maternidade, ela já estava lá, sentada sozinha em um banco com duas bolsas grandes, sendo uma de bebê”, detalha.

Segundo ela, a todo momento, a mulher aparentava nervosismo. “Estava inquieta, olhava de um lado para o outro sem parar e não saía do telefone. Parecia já conhecer o ambiente e sabia o que estava fazendo ali. Cheguei a perguntar se esperava por alguém e ela confirmou que aguardava a prima”, completa.

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Para a funcionária, Gesianna aparentava estar grávida e passou a manhã inteira na maternidade. “Eu saí, voltei e ela permanecia no mesmo lugar. Depois, andou um pouco e puxou assunto com várias mães. A todas, perguntava se os filhos tinham nascido há pouco tempo. Uma mãe de gêmeos, inclusive, foi abordada”, declara.

A servidora acrescenta ainda que, desde cedo, desconfiou da atitude da sequestradora. “Era tudo muito suspeito. Ela não estava internada e apareceu com essas bolsas de repente. Além disso, o olhar dela a entregou”, afirma. Na sexta- feira passada, a mesma pessoa esteve no Hran. “Não era meu expediente, mas me contaram”.

De acordo com a testemunha, a falta de segurança no hospital é recorrente. “Na entrada da maternidade não existe fiscalização. Na verdade, não tem ninguém ali, nem no corredor. O local fica largado, abandonado e o acesso é facilitado. O cenário é mesmo em todos os andares e setores da unidade. A vigilância só existe na portaria central. Já trabalhei em outros hospitais e nunca vi isso”, detalha.

Em determinado momento, a funcionária se ausentou e, ao retornar ao posto, se deparou com a polícia. “Aparentemente, a mãe do bebê estava tranquila e não demonstrava desespero, o que causou estranhamento entre as mães”, diz.

Flagrante

Depois de forjar uma gravidez durante meses, entrar com um nome falso no Hran e raptar o recém- nascido de 14 dias, tudo isso escondido da família, inclusive do marido, Gesianna foi presa em flagrante por volta das 9h na QE 38 do Guará 2. Ela estava em casa com a criança quando foi surpreendida pelos agentes da Divisão de Repressão a Sequestros (DRS). A 5ª Delegacia de Polícia (Área Central) também deu apoio. Agora, ela vai responder por subtração de incapaz, previsto no artigo 237 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e poderá pegar de dois a seis anos de reclusão. A vítima e a mãe receberam alta médica ontem à noite.

Família foi enganada com barriga falsa

Segundo o delegado-adjunto da DRS, Paulo Renato Fayão, a acusada chegou a cursar Enfermagem, mas não concluiu o curso. Portanto, nunca prestou atendimento em uma unidade de saúde do DF. Casada há dois anos, Gesianna perdeu um bebê aos três meses de gestação em 2015, mas, desde o final do ano passado, vinha enganando os familiares com uma barriga falsa de oito meses.

No dia do sequestro, ela entrou pela portaria central do Hran usando um vestido listrado. “Disse que se chamava Juliana e que ia visitar uma parente. Três testemunhas detalharam características físicas e ajudaram a polícia na identificação. Além disso, notamos algumas inconsistências nos dados apresentados pela mulher na entrada do hospital”, explica o delegado.

Fayão confirma que Gesianna deixou a unidade com o recém- nascido dentro de uma bolsa preta. “A escolha da criança foi uma questão de oportunidade. Ela não premeditou levar aquele bebê especificamente”, destaca. De acordo com o delegado, o recém-nascido ainda não foi registrado, mas é chamado pela mãe de Jhony Júnior.

Desculpas

Para ele, não há indícios de participação da família no crime. Inclusive, os parentes ajudaram a polícia a desvendar o caso. “Todos foram enganados. Propositalmente, ela marcava as consultas nos dias em que o marido estaria trabalhando. Além disso, ele contou que os dois já estavam há aproximadamente seis meses sem nenhuma relação sexual. Certa vez, ele encostou na barriga da esposa, mas não estranhou nada, já que ela usava uma cinta”, completa. Até o momento, a barriga falsa e a bolsa utilizada por Gesianna para retirar Jhony do Hran não foram encontrados. Ambos foram descartados.

Segundo o delegado, a suspeita chegou a mandar fotos do bebê para o marido no dia do desaparecimento da criança. “Ela também enviou mensagens e ligou para ele se passando por uma amiga para dizer que estava tudo bem. Depois do trabalho, o suposto pai até tentou ir visitar o filho, mas a mulher disse que ele não teria acesso. Mais cedo, ela saiu de casa dizendo que estava com contrações”, acrescenta.

Fayão confirma que a sequestradora esteve na unidade na última sexta fazendo perguntas suspeitas aos pacientes. “Nesse caso especificamente, houve falha na segurança. Sabemos que ela entrou no hospital às 7h e raptou a vítima por volta das 12h. Depois disso, não sabemos o destino de Gesianna. No quarto que a mãe dividia com outra paciente, não tinha ninguém no momento, apenas os dois bebês”, diz. Na delegacia, Gesianna permaneceu em silêncio após ser orientada pela advogada. “Ela parecia ter algum distúrbio”, conclui.

Saiba mais

  • O diretor do Hran afirmou que o hospital fez licitação para a instalação de câmeras, mas foi impedido de instituir o sistema. O Tribunal de Contas, por outro lado, negou que tenha suspendido processo. O órgão fez auditoria entre agosto e novembro de 2016, para verificar os equipamentos adquiridos pela pasta.
  • “Apenas cerca de 10% das 900 câmeras compradas em 2012 foram efetivamente instaladas. E mais: o monitoramento eletrônico que se pretendia implementar com essa aquisição, na verdade, nunca funcionou”, ressaltou a Corte.

Sequestradora fez até chá de fraldas

Gesianna chegou a fazer um chá de bebê e estava à procura de uma criança do sexo masculino. Ontem, chegou à delegacia por volta das 10h45 e desceu do carro com um pano branco na cabeça. Nas redes sociais , a mulher mantém fotos usando jaleco. Em novembro de 2016, comemorou uma gravidez em postagem no Facebook. “Teremos o nosso primeiro pimpolho para amar, educar e dar continuidade ao nosso amor”, dizia a legenda da foto.

“Eu também não sei o que está acontecendo. Ela fez o pré-natal em um posto de saúde, estava de nove meses e nós fizemos chá de fralda. Ontem (terça-feira), ela saiu para ganhar o bebê, mandou uma foto da criança no grupo e chegou em casa pela manhã”, contou uma tia da mulher, visivelmente nervosa.

Questionada, a Secretaria de Saúde não se pronunciou sobre o suposto pré-natal feito no Guará. À reportagem, a assessoria se limitou a dizer que “o caso está sendo apurado pela polícia”.

Perda de peso

Do momento em que foi identificado o sumiço do bebê até a prisão da sequestradora, passaram-se menos de 24 horas. Período suficiente para que o garotinho perdesse 470 gramas. Pela manhã, de volta ao Hran, o recém-nascido passou por exames e voltou ao colo da mãe.

“Nós estávamos sem chão”, desabafou a avó paterna, Dalvina Maria dos Santos, 40 anos, revelando que o sentimento é de insegurança. O menino nasceu na Estrutural e foi encaminhado para a Asa Norte.

“Qualquer evento que não tenha ocorrido da forma protocolar, como o caso, é considerado adverso. Vamos analisar o acontecimento para melhorar a segurança. Quando esclarecido o modo como a mulher retirou o bebê, estudaremos as melhores formas de modificar condutas”, diz José Adorno, diretor do Hran. Por enquanto, houve alerta para reforço nas entradas.

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