A condenação de Danilo Gentili por ataques gordofóbicos contra Sâmia Bomfim não nasceu de uma piadinha isolada. Entre as publicações levadas à Justiça, o apresentador escreveu que a deputada era “tão gorda que acha que até os ministros devem ser temperados”. Depois de saber que seria processado, voltou à carga e fez outra provocação sobre alargar as portas do tribunal.
Eu já tinha escolhido a camisa preta e estava fechando os botões na frente do espelho quando li as frases de novo. Parei no terceiro botão. Porque há gente que chama isso de humor, mas o roteiro é muito velho: mulher fala de política, homem perde o argumento e corre para atacar o corpo dela.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a condenação de Gentili ao pagamento de R$ 20 mil por danos morais e a retirada das postagens ofensivas. A Quarta Turma negou, por unanimidade, o recurso da defesa, que alegava prescrição da ação movida por Sâmia.
A Justiça entendeu que as mensagens ultrapassaram os limites da crítica e da liberdade de expressão. E não foi apenas pelo conteúdo das ofensas, mas pela insistência: havia publicações desde 2018 e novos ataques surgiram depois, mantendo a deputada exposta nas redes.
Eu sentei para colocar o sapato e pensei no cinismo da tese. O homem publica ataque, deixa o ataque no ar, publica outro ataque e depois tenta dizer que o prazo para a vítima reagir passou. A internet pode até ter memória curta para escândalo, mas processo não é Stories que some em 24 horas.
Em primeira instância, Sâmia perdeu a ação. O Tribunal de Justiça de São Paulo reformou a sentença, reconheceu o caráter gordofóbico das postagens e determinou a indenização. Agora, o STJ confirmou o resultado.

E esse é o ponto que incomoda tanta gente: não se trata de proibir crítica a parlamentar. Sâmia pode ser contestada, confrontada e criticada por suas posições políticas. O que Gentili não podia era transformar o corpo dela em munição repetida, como se misoginia e gordofobia ganhassem passe livre quando saem da boca de um comediante.
Eu peguei a bolsa, conferi se o celular estava carregado e fiquei com aquela sensação amarga de que o básico ainda precisa ser explicado em sentença: chamar alguém de gorda para humilhar não é liberdade de expressão. É ataque. E, desta vez, virou condenação.