Por Isabele Mendes
O custo para morar em condomínio no Distrito Federal voltou a subir acima da inflação e já preocupa moradores que acumulam reajustes no aluguel, nas taxas extras e nas despesas do dia a dia. Segundo levantamento da Loft, empresa de tecnologia e serviços financeiros para imobiliárias, a taxa média de condomínio no DF teve alta de 17% entre janeiro e abril deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025, alcançando média mensal de R$ 593.
Os dados foram levantados a partir de 6.846 anúncios residenciais publicados em plataformas digitais imobiliárias. Entre as regiões com maior aumento percentual, Samambaia Norte lidera o ranking, com salto de 67%, passando de R$ 240 para R$ 400 em apenas um ano. Guará II (+46%), Asa Sul (+44%) e Ceilândia Norte (+40%) também registraram aumentos expressivos.
De acordo com Fábio Takahashi, gerente de dados da Loft, parte desse crescimento está relacionada à chegada de novos empreendimentos residenciais. “Essas altas costumam refletir mudanças na composição dos anúncios. A entrada de novos empreendimentos, especialmente condomínios-clube, pode elevar rapidamente a média, mesmo quando o valor final ainda é relativamente acessível”, explica.
Apesar do crescimento mais intenso em regiões populares, o Plano Piloto continua concentrando as maiores taxas do DF. O Setor Noroeste aparece com a maior média mensal, de R$ 1.163, embora tenha registrado queda de 27% no período analisado. Já a Asa Sul chegou a R$ 1.150 mensais após alta de 44%, enquanto a Asa Norte alcançou R$ 982, com aumento de 31%.
Especialista em mercado imobiliário, Daniel Claudino afirma que reajustes acima da inflação não são necessariamente abusivos, desde que estejam fundamentados em despesas reais do condomínio. Segundo ele, os maiores impactos costumam vir de custos com portaria, manutenção predial, segurança privada e folha de pagamento. “O problema aparece quando o aumento chega sem prestação de contas, sem orçamento aprovado e sem base factual. Nesse caso, sim, pode-se questionar o caráter abusivo”, afirma.
O especialista lembra ainda que o síndico não pode decidir sozinho pelo aumento da taxa condominial. De acordo com o artigo 24 da Lei de Condomínios (Lei n.º 4.591/1964) e o artigo 1.350 do Código Civil, o aumento da taxa condominial exige a convocação de assembleia com finalidade específica. “Participar ativamente das assembleias é a principal ferramenta do proprietário para influenciar como o dinheiro coletivo é gerido”, destaca.
Cobertor curto ao final do mês
Morador do Guará II há sete anos, o agente de vendas André Luid Xavier, de 25 anos, também sentiu o aumento da taxa condominial pesar no orçamento. A região foi a segunda colocada entre os maiores crescimentos registrados no DF, com alta de 46%. Segundo ele, o valor da cobrança subiu consideravelmente desde que se mudou para o local. “Sempre achei o condomínio aqui caro para o que ele oferece. Lembro que entrei pagando próximo de R$ 400 e agora já está perto de R$ 500. Mesmo dividindo o apartamento com mais dois colegas, o aumento impacta na rotina financeira”, relata.
Para André, os serviços oferecidos não justificam o valor atual da taxa. “É um condomínio sem piscina, sauna e nem nada do tipo. Tem apenas brinquedoteca e quadra, que não precisam de muita manutenção”, afirma.
Segundo ele, os custos mais altos aparentam estar ligados à segurança e à limpeza do residencial. “Eu não costumo destrinchar muito a conta do condomínio, mas acredito que, pelo que entregam, o valor seja mais de segurança, com porteiros, e limpeza. Tem também taxa de construção que o dono do apartamento paga”, explica.
Nova vida, novas contas
Moradora de Águas Claras, região que aparece entre os maiores aumentos registrados no levantamento, com alta de 30%, a jornalista Jessica Nascimento, de 34 anos, percebeu o aumento das despesas desde que se mudou para o condomínio, em 2024. Atualmente, ela e o marido pagam R$ 750 de condomínio, com água e gás inclusos. “Para um casal, que tem as contas divididas, acaba não pesando muito pelo o que é oferecido, mas caso aumente ainda mais, a situação vai ficar complicada, porque o aluguel também subiu desde que nos mudamos”, relata.
Jessica conta que o condomínio oferece academia, piscina, sauna e mercadinho, mas algumas medidas de contenção de gastos já impactaram os moradores. “Tínhamos segurança à noite, mas em assembleia foi decidido que os seguranças teriam que sair porque, se não, o condomínio iria aumentar. Então perdemos algo importante”, afirma.
Ela também critica as cobranças extras para utilização de espaços comuns. “Cobram R$ 100 para usar a churrasqueira, sendo que o condomínio já é caro. E a churrasqueira ainda está em reforma há cinco meses”, reclama.
Segundo Daniel Claudino, o direito de fiscalização das contas do condomínio pertence aos proprietários dos imóveis, que podem solicitar acesso a contratos, relatórios financeiros e atas das assembleias. “O exercício ativo da fiscalização é, na maior parte das vezes, mais eficaz e menos desgastante do que a via judicial”, pontua.