“Perdeu. Entra no carro, isso é um sequestro”. Foi o que o servidor público F.C.B., 39 anos, ouviu quando chegava em casa, pouco depois de estacionar o carro na garagem do prédio, na 210 Norte. O relógio marcava 0h30, e o terror estava apenas começando. Apontando uma pistola para o homem, duas jovens de 17 e 23 anos anunciaram o começo de um pesadelo. Amedrontado, ele só pensava em sobreviver e obedecia às ordens. As ameaças só acabaram quando elas o deixaram, com pés e mãos amarrados, em uma estrada de terra próxima a Planaltina. Porém, depois de fazer a ocorrência na delegacia, e da prisão das suspeitas, veio a surpresa: aquela arma apontada durante aproximadamente uma hora para sua cabeça era, na verdade, uma réplica. Não dá tiros e não mata. Apenas intimida e torna qualquer um passível de ser refém, tamanha semelhança com as verdadeiras.
No Distrito Federal, a prática está se tornando cada dia mais comum. O comércio ilegal dos chamados simulacros, armas de pressão fabricadas para treinamento de policiais, capacitação e caça, acontece livremente na região. Existem lojas na Feira dos Importados e no Plano Piloto que fazem comércio destes produtos, além da própria internet. O ideal, segundo a legislação, é que só sejam entregues aos compradores que apresentam documentação expedida pelo Exército Brasileiro.
Entretanto, nem sempre é assim que funciona. De janeiro a 14 de maio deste ano, a Polícia Militar, por meio das Rondas Ostensivas Táticas Motorizadas (Rotam), apreendeu 117 réplicas. Na outra ponta, apenas 85 armas de fogo originais foram capturadas pela Rotam. Todas em assaltos e furtos, principalmente em situações que envolviam menores. A Secretaria de Segurança não possui um balanço de quantos simulacros foram apreendidos no total.
Semelhança
“A arma é idêntica a uma normal. Solta bolinhas de seis milímetros em uma velocidade de 250 km. Não mata, mas pode causar lesões graves”, explicou o tenente-coronel da Rotam, Leonardo Sant’ana. Especialista em segurança, o profissional ressaltou ainda que a vítima nunca deve reagir, mesmo desconfiando de que o objeto pode não ser verdadeiro.
“Numa situação de risco, as pessoas ficam atordoadas. O melhor é obedecer, mesmo sabendo que aquilo não é original. Até porque a semelhança é muito grande”, alertou. O simulacro, completou, é igual uma arma real relativamente desgastada de metal.
Preços de até R$ 200
Em lojas e feiras que vendem o produto irregularmente, o preço pode chegar a R$ 200, pela própria qualidade da arma. Elas são mais frágeis do que as originais, mas enganam. “Essas que são vendidas ilegalmente vêm de fora do País. No Paraguai, por exemplo, são muito mais baratas. E passam pelas fronteiras. Neste ponto, a fiscalização falha”, salientou o tenente-coronel Leonardo Sant’ana, da Rotam.
Em lojas regulamentadas para o comércio, algumas chegam a custar R$ 2 mil, tamanha precisão e qualidade dos simulacros. “Os locais que vendem livremente, no Plano Piloto e até na Feira dos Importados, têm permissão para vender e devem pedir a documentação ao comprador”, diz.
Quem vende de forma ilegal o produto não responde criminalmente – sofre apenas com o fechamento do estabelecimento, multa e cancelamento do alvará. Quem usa as armas em assaltos e roubos também recebe penas leves, pois não configura porte de arma nem tentativa de homicídio.
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